Susana Sánchez Arins, poeta e professora de secundária

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«Há uma falta total de sensibilidade e curiosidade polas línguas das pessoas que convivemos nos espaços, educativos ou doutro género, e isso só ajuda a estender uma olhada de desprezo cara as outras línguas, um “outras” que tristemente inclui a nossa»

Susana Sánchez Arins | Foto: Eduardo Castro Bal (AELG)

Susana Sánchez Arins | Foto: Eduardo Castro Bal (AELG)

Susana Sánchez Arins é poeta, nascida em Vila Garcia de Arouça.  Licenciada em Filologia Hispânica e Portuguesa pela Universidade de Santiago de Compostela. Atualmente é professora do ensino secundário. Pela sua obra [de]construçom, recebeu, em 2009, o Prémio Nacional de Poesia Xosémaría Pérez Parallé e em 2012 publica  A noiva e o navio com a Através Editora.

Já levas três livros publicados com grande êxito de crítica e público, mesmo tendo uma grafia “não ortodoxa”. Tiveste alguma experiência de “silenciamento” ou “infravalorização” polo feito de escreveres em galego-português?

Sabida por mim, não. Mas isso não quer dizer que não acontecera, porque se o meu nome foi riscado, por exemplo, dalguma atividade antes de eu sequer ter conhecimento dela, pois não vai aparecer na minha memória de agravos recebidos.

O certo é que os silêncios e as infravalorizações têm muita relação com os espaços de poder polos que litigas (ou não) e a verdade é que eu parto dum posicionamento marginal: escolhim o reintegracionismo, assumo que isso me coloca num lugar em aparência subalterno e é nessa margem a partir da qual trabalho, bem a gosto. Nunca me passou pola cabeça petar nas portas da Xerais ou da Galaxia, por exemplo, polo que também não tenho que dar queixas delas. Fago parte da AELG, e também não percebi animosidade, mas é certo que nunca me apresentei à presidência; quem sabem que molas choutariam nesse caso! Sinto que é consentida a minha presença, porque não incomodo. Suponho que se pretendesse sair dessa margem em que me instalei, os galos cantariam todos.

A minha experiência pessoal é mesmo a contrária. Surpreender-me de ser recebida e aceite em espaços que eu pensava alheios ao reintegracionismo. Há portas que nunca pensei que me dariam entrada, por fazerem parte das instituições ortodoxas, como o Diario Cultural da RG, por exemplo, onde toda a minha obra contou com um altifalante e eu própria fui convidada a participar em atividades como a dos Cantares Hoje, homenagem a Rosalia de Castro, da mão de pessoas defensérrimas da norma ILG-RAG. E não rebentaram as fontes nem arderam bibliotecas…

Sinto que encontrei um espaço e não tenho capacidade para julgar se é grande ou pequeno de mais e se o seu tamanho tem relação com a minha condição de reintegracionista, ou com outras condições que também assumo como posicionamentos, como a de feminista, por exemplo.

Várias escritoras impulsastes um espaço de crítica na rede, A Sega, onde conviveis autoras que tendes diversos pontos de vista sobre língua. Que tal está ser a experiência?

A experiência d’A Sega é para mim definível com duas palavras: aprendizagem e alegria. Somos críticas literárias que partimos de dous pontos em comum: a galeguidade e o feminismo. E mesmo nessas partilhas somos mui diferentes, como bem indicas, ainda que eu não considero que tenhamos diversos posicionamentos linguísticos mas diferentes estratégias normalizadoras.

O grupo, que funciona de maneira virtual, em vez de viver essa diversidade como uma problemática, vive-o como riqueza. Aprendemos muitíssimo umas das outras. E passamo-lo mui bem. Quando abro a conta do gmail, fago-o com um sorriso e pensando a ver se alguma segadora escreveu algo… Assim é um gosto! Temos experiências, vitais, formativas, profissionais, mui diversas e cada vez que temos que fazer alguma cousa entre todas, de maneira colaborativa, nascem matizes, facetas e brilhos que nenguma das nossas individualidades poderia aportar sozinha. Num espaço assim, a diversidade linguística também não é vivida como problema. Levamos um ano de funcionamento e eu só sei que me sinto mais sábia e melhor acompanhada que antes.

Quando tomas consciência de que o galego é mais do que te ensinaram na escola?

Não percebo mui bem o sentido da pergunta. Eu não aprendim o galego na escola, mas no pátio de recreio. Quer dizer, eu era castelhano-falante por parte de família, mas as minhas amigas todas eram galego-falantes. Não cheguei ao galego na sala de aulas, mas no caminho, no espaço do jogo. Lembro a minha mãe, crescida no centro de Vila Garcia de Arousa, contar-nos da sua surpresa ao descobrir, no momento de ir viver para a aldeia, que o galego existia, que era uma língua falada por gente de verdade. A minha surpresa foi a inversa: ver que o castelhano só era falado de portas para dentro da casa. E a consciência da língua vem de tão velho, e já tenho uma idade, que já nem memória tenho de como foi adquirida. Lembro-me repetindo o recado na taberna para fazer ver a Fina que não tinha que mudar de língua para me atender, que eu estava a pedir o pão em galego. Que anos teria? Não sei. Essa consciência a sinto parte de mim. Apreendida e naturalizada com a própria língua.

És professora num liceu. Como se vê nos teus círculos profissionais a conexão com a lusofonia e a importância do português como língua internacional?

Penso que não se vê. Basicamente. Quando o único que interessa são as línguas de mercado, e a este interesse unes o complexo de superioridade com respeito ao mundo lusófono, o normal é a ausência de sensibilidade cara o estudo do português.

Mas não é essa a minha principal preocupação, entanto professora de língua. O que mais me dói é o facto da diversidade linguística ser vivida como um problema, como uma fonte de conflitos, sejam sociais sejam educativos. E não me refiro à questão galego-castelhano. É uma questão mais geral, mais babélica que, claro é, envolve aquela. O conhecimento de línguas limita-se ao conceito falso de utilidade laboral (quer dizer, para a emigração): só valem o inglês e o espanhol. Há quem une a elas o galego, por razões de identidade. Mas por trás disto jazem as mesmas ideias de norma, correção, padrão, uniformidade enfim, que tanto dano fam à diversidade. E encontras que tens nas aulas uma cheia de variedades linguísticas às que ninguém atende, porque nem sequer são vistas: galego oriental, berber, árabe, catalão, romanó, romenos, dominicano, português do Brasil, albanês, eusquera… Há uma falta total de sensibilidade e curiosidade polas línguas das pessoas que convivemos nos espaços, educativos ou doutro género, e isso só ajuda a estender uma olhada de desprezo cara as outras línguas, um “outras” que tristemente inclui a nossa. E acabas por ver adultas e adolescentes que ocultam o seu sesseio, porque não é correto, que deixam de dizer quatro, porque não é correto, que esquecem a palavra gradicela, porque é incorreta, etc. etc.

E os e as alunas como o vem?

As alunas fam parte da sociedade em que vivem e são criadas. Nem mais nem menos. Encontraremos nelas a mesma proporção de seguidismo e rebeldia que noutras faixas etárias.

És uma mulher de interior, mas conheces excecionalmente bem a cultura marinheira. Considerando a tua experiência, tens a impressão de que existem duas Galizas, uma, ou muitas?

Que conheço mui bem a cultura marinheira duvido… Admito que sou curiosa e gosto de fazer parte dos lugares onde vivo. E habitar uns anos a Arousa deu-me possibilidade de aprender muito das minhas vizinhas. Descobrim uma parte da minha língua e da minha cultura que me eram desconhecidas, mas em que pudem entrar sem problema porque contava com as chaves que me dava a minha rural galeguidade. Uma das minhas amizades carcamãs vem de fazer a viagem inversa e também não encontrou problemas. Obtém a mesma felicidade entre as abelhas da Terra de Montes que entre as bateias do Salnês. Por isto não acredito que haja duas Galizas, penso que há quase tantas como paróquias. E isso é uma maravilha. Temos uma cultura enormíssima e dá gosto pensar que sempre, algures, resta algo por aprendermos de nós mesmas.

Por onde achas que deve caminhar o reintegracionismo e o movimento normalizador?

Sou uma pessoa pessimista, quer dizer, penso que a situação é muito difícil. A pressão uniformizadora da sociedade em que estamos injetadas é demasiado grande. Agora mesmo tenho a TV acesa e só podo escutar galego (galego e castelhano) num canal. De resto, todo em espanhol. Isso é o que há. Sem vontade política pouco podemos fazer. A ILP-Paz Andrade é uma grande iniciativa, com propostas concretas e pertinentes, mas duvido que este governo faga nada para que vejamos TV portuguesa nas nossas casas ou para que haja a matéria de português em todas as escolas, justamente porque são medidas singelas que inverteriam a situação linguístico-social. Se atacam Isabel Rei por fazer cartazes com nh no CMUS de Santiago!

E sou uma pessoa otimista, quer dizer, acredito que as alternativas existem e que as experiências locais servem sempre para qualquer cousa, ainda que só seja como exemplo de que o mundo pode ser doutra maneira. E por isso gosto das iniciativas da AGAL, os OPS, os aPorto, etc. Esses todos são caminhos que devem ser andados. Se Isabel Rei leva anos a fazer cartazes com nh no CMUS de Santiago e a música continua a soar!!

Que visão tinhas da AGAL, que te motivou a te associares e que esperas da associaçom?

Para mim a Agal sempre foi uma referência, mas nunca me interessou fazer parte dela. Avondava-me com praticar o reintegracionismo e colaborar indiretamente, assinando a Agália, comprando publicações e participando em atividades pontuais. Porém, há uns messes Helena Miguélez-Carballeira fez desde o Praza Pública uma dúzia de propostas para despirolizar a Galiza. Eu lim, rim, assentim, e aqui estou, a fazer o meu pequeno contributo para despirolizar a AGAL. Estades avisadas!!

Como gostarias que fosse a “fotografia linguística” da Galiza em 2020?

Gostaria de que as minhas sobrinhas falassem galego sem se sentir bechinhas raras. Só com isso, ficava satisfeita.

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Conhecendo Susana:

susanasanchezarins

Susana Sánchez Aríns

  • Um sítio web: A Sega, é claro.
  • Um invento: Da última vez que respondim a este questionário escolhi a máquina de lavar roupa. E penso que é um invento ainda não superado. Pode que o frigorífico, ou o concreto/cimento estejam à altura, porém, tenho dúvida.
  • Uma música: Mmmmm, qualquer mestiça, impura, mista; qualquer ou todas as híbridas onde a autora recolha uma tradição e a revire, pregue, retorça ou esprema até dar com uma música nova, de tão velha. Neste estilo entram Mercedes Peón, Martírio, Rita Ribeiro, Ugia Pedreira, Lidia Puyol, Concha Buika, Sés, Adriana Calcanhotto ou Remédios Amaya.
  • Um livro: Um só? Ains! Quando lim Rosalia de Castro, queria chegar a escrever como ela; quando lim Sophia Andresen de Mello Breyner, queria chegar a escrever como ela. Não há muito tempo descobrim Wislawa Szimborska. Agora quero chegar a escrever como ela. Assim que vão os Versos Escollidos, publicados na Edicións Positivas.
  • Um facto histórico:  A luta das mulheres da Arousa contra o parcelamento e privatização dos bancos marisqueiros, por exemplo. Quer dizer, qualquer luta quotidiana que nunca terá espaço num livro de história.
  • Um prato na mesa: Ultimamente, a fideuá de conchas do Trisquel, na Arousa. Cousa rica! E se não, o queijo com marmelo, mais saboroso se o tomares às cinco da tarde na de Constante, precedido de polvo e churrasco, após ter subido ao monte de Sabucedo a juntar as bestas numa calorosa manhã de julho. Delícia!
  • Um desporto: Sempre adorei o couch-potato, assim chamado pola federação internacional, ou estombalhe, na versão tradicional. Aprendim a navegar em dorna e por vezes é uma boa alternativa, embora isso não seja um desporto, mas um estilo de vida [sorriso].
  • Um filme: As ligações perigosas, de Stephen Frears. Vejo e vejo e vejo e sempre gosto. Essa madame de Merteuil!
  • Uma maravilha: Viver
  • Além de galega: Mulher!

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Entrevista publicada originalmente no PGL na sexta, 23 de maio de 2014

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