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Para Fernando V. Corredoira
Por Ernesto Vázquez Souza
«Avui el galleguisme es troba al recolze on el regionalisme gira cap al nacionalisme. La visita dels gallecs va completar els actes d'amistat i alliança entre els pobles peninsulars desperts o que es comencen a despertar.»
«La Setmana gallega» em Anuari de Catalunya 1917.
Um dos momentos mais interessantes, para mim, da história do nacionalismo galego é o período 1917-18. O dos episódios protagonizados sob a chefia natural -mas infelizmente muito breve- de Lois Porteiro Garea, polos quais o nascente culturalismo regionalista das Irmandades de Amigos da Fala vira em plataforma política nacionalista. Entre esses episódios destaca a Semana Galega de Barcelona de 1917. [+...]
Ainda que o sentido político da viagem já foi estudado por Xosé Estévez (De la triple Alianza al pacto de San Sebastián 1923-1930, Mundaiz, 1991) e amplamente contextualizado por Antón Capelan («Poemas para unha embaixada de outrora» em Diatribas Manuelinas, Laiovento 2004), aproveitando a gentileza do PGL, fazemos hoje crónica, a ver se se nos apaga o mal sabor de boca do esperpêntico Grande encontro manchego (que diriam Reimundo Patinho e Chichi Campos se vivessem) de há três semaninhas.
Em Janeiro do ano 1917, a Irmandade da Crunha promovera um Comité de Acção Galeguista, encarregado da organização de comícios e palestras para espalhar o movimento por toda a Galiza agrária. Em 11 de Fevereiro de 1917, Porteiro Garea falava no Casino Republicano da Crunha, convidado pola directiva. Esse salto à política teve rápidas consequências. Aparecem os ataques públicos ao regionalismo na imprensa e, desde 26 de Fevereiro, a impressão de A Nosa Terra passa do obradoiro de La Voz de Galicia a Roel.
Em Julho de 1917 os Parlamentários catalães, fartos da pressão da Juntas militares, e trás dous anos de reclamação no Congresso polo uso do catalão nas instituições do Estado, organizariam o seu mais sério desafio à Monarquia espanhola, constituindo-se em Assembleia. A Assembleia decorreu em 5 de Julho, às cinco da tarde, no Consistori nou de l'Ajuntament de Barcelona. A proposta chegará a ameaçar seriamente o tinglado da Restauração.
Infelizmente as instigadoras protestas encetadas pola Lliga e secundadas pola maior parte dos deputados e concelheiros catalães, que pretendiam uma reforma sistemática e escalonada até converter Espanha num Estado mais descentralizado e democrático, logo se viram superadas polo discurso radical que encetará a esquerda obreira em 1917.
As jornadas de mobilização e violência, e de repressão, que se seguiram aos dia de greve de Agosto de 1917, congelariam em muita medida o discurso regeneracionista de muitos intelectuais e políticos de cor mais conservadora. Que, despavoridos, recuaram dos seus posicionamentos de reforma, para muitos, como o próprio Cambó e o mesmo Risco, acabarem coincidindo -terror à massa movimentada- numa desconfiança certa pola democracia popular. Temores que em três anos iam dar lugar à primeira Ditadura, amplamente apoiada por intelectuais e políticos conservadores.
O Estado aproveitou também as jornadas levantiscas para proceder a uma substituição de concelhos molestos, para reprimir com uma sanha sem precedentes o obreirismo; para declarar o estado de alarma e impor a censura. Neste contexto, é normal que as conclusões e declarações da Assembleia de Barcelona ficassem em papel molhado.
Porém, nesse convulso 1917, o discurso da Lliga regionalista é recebido com entusiasmo polas Irmandades da Fala, que recolhem no seu «idearium» A Nosa Terra, dúzias de notas sobre a Catalunha, entre eles o sonado «Catalonia, mater iberorum» (ANT 30/07/1917). Já nesse ano sabemos de encontros pontuais de galegos e catalães, continuando a tradição que a nível pessoal se mantinham desde os tempos da Liga Galega na Crunha e Solidaridad, encontros que a rede de viajantes de comércio galegos e catalães facilitava.
Em 10 de Setembro, Françesc Cambó chega à Galiza em companhia de Xavier Calderó (1º tenente de Alcalde de Barcelona), visita a II Exposição de Arte Galega e manteve uma reunião com a directiva da IF da Crunha, naquela altura chefiada por A. Vilar Ponte e Rodrigo Sanz. A figura de Aurélio Ribalta, com grande presença em Barcelona nestas datas é fundamental. Neste ambiente é que se decide montar a Semana Galega de Barcelona.
Em 23 de Novembro de 1917, à tarde saíam de Compostela para A Crunha, Porteiro Garea e Leandro Pita Romero (aluno naquela altura de último de direito e discípulo dilecto do líder galeguista), para se reunir lá com os demais representantes do regionalismo. Ao dia seguinte encetavam caminho cara a cidade condal.
O programa de actos, que compreendia um ciclo de palestras e encontros (vid. «La excursión regionalista» em Gaceta de Galicia, 23-11-1917), teve ampla repercussão na imprensa de Madrid (estes actos, foram amplamente destacados, com certo alarme, pola imprensa de Madrid. Especialmente El Debate fez um amplo seguimento). Não se fez nenhum eco a imprensa galega (que como de costume silenciou um acto de ressonância estatal) excepto Gaceta de Galicia, propriedade do velho regionalista discípulo de Brañas, Francisco Vázquez Enríquez, antigo membro da Liga Gallega de Compostela, militante da Irmandade da Fala e amigo pessoal de Lois Porteiro.
Em 27 do mesmo mês chegavam a Barcelona os regionalistas galegos, no expresso de Madrid. Na ferroviária eram aguardados por representantes do Concelho de Barcelona, Lliga Regionalista, Centro Autonomista de Dependentes de Comercio, Instituto Catalán e diversas entidades, ademais de imenso pessoal. Foram conduzidos ao local da Lliga, onde teve lugar a recepção. Falou Valés i Pujol desculpando a ausência de Cambó e Abadal, indispostos. Celebrou os comissionados galegos e indicou que entre eles «salvariam Espanha». Leram-se telegramas de saudação chegados de Santiago e Lugo e passou-se aos discursos. Começou Antón Vilar Ponte, «Evolución de nuestro regionalismo». A seguir, Porteiro, que falou em galego e informou que a visita dos galeguistas a Barcelona obedecia ao desejo de selar um pacto entre a Galiza e a Catalunha. Peña Novo, com um discurso económico, explicou a complementaridade dos interesses galegos e catalães. Acabou o acto com vivas às duas nacionalidades («Los regionalistas gallegos en Barcelona» em Gaceta de Galicia, 27-11-1917).
Dedicaram os excursionistas o dia 28 a visitar os diversos centros catalanistas e vários lugares da moderna capital. O segundo dia de propaganda foi o 29. No Instituto Agrícola Catalán pronunciou Peña Novo, em galego, a sua aguardada palestra: «O problema e organizacións agrarias en Galicia». No salão de actos do Centro Autonomista de Dependientes de Comercio decorreu, o mesmo dia, o comício de afirmação regionalista e de reivindicação linguística e nacional. A presença dos delegados galegos foi celebrada com uma salva de aplausos e uma longa ovação de vivas à Galiza e à Catalunha.
Abriu o acto o Sr. Cambó, depois falou Ribalta e, de seguido, o que seria a estrela do acto: Lois Porteiro. O discurso, em galego, começa versando sobre o feito da coexistência não problemática das línguas espanholas numa mesma assembleia, sem problemas de comunicação. Resume a história da Galiza nas suas chaves próprias, hispanas, ibéricas e americanas e, contestando os comentários de El Debate ante a palavra «nacionalismo», expõe um relatório claro da história do movimento regionalista ou nacionalista, da sua obra e transcendência, indicando que é a ideia do regionalismo e que é o que os seus defendem.
Resume Porteiro que o Regionalismo está aberto a todos aqueles homens dos partidos que o desejarem. Refuta a acusação de separatista, indicando que no programa regionalista não existe nada que vá contra das leis de Espanha, acusa por isto de separatistas os caciques que não fazem senão violentá-las. Gaba Catalunha e a sua resistência contra a ignorância centralista. Tem uma lembrança para os emigrantes que mostram com os seus esforços pessoais e sociais, em Estados que também não os protegem, que a fatalidade da Galiza é filha de um caciquismo que por riba de não proteger, persegue os seus filhos. Tem duras palavras contra o projecto de Mancomunidade que a modelo da Catalunha, mas sem qualquer espírito, pretendem criar em 24 horas os caciques políticos galegos. E solicita a ajuda do catalanismo para se livrarem do caciquismo. E, finaliza posicionando abertamente o regionalismo fora dos partidos do sistema canovista:
«Un hábil diputado besadista indicaba recientemente que todo pudiéramos hacerlo dentro de los partidos viejos o por lo menos sin vuestra ayuda. Es falso y él lo sabe muy bien: yo puedo probar que todos los movimientos iniciados en Galicia desde 1898 fueron ahogados por el terrorismo del poder persiguiendo ferozmente a los propagandistas; obligando a emigrar a muchos labriegos, persiguiéndolos como criminales por haber discrepado del criterio de la política. Y no hablemos del falseamiento de la voluntad popular. En mi última conferencia os cité algunos casos y quedan en mi catálogo muchos más. En estos días acaban de hacerse proclamaciones por el artículo 29 a puertas cerradas.» (Destacados nossos, em «Propaganda regionalista. Extracto de los discursos pronunciados por los Sres. Porteiro y Cambó en Barcelona», em Gaceta de Galicia, 11-12-1917)
Encerra o acto Cambó, com um recordo à memória de Brañas, e aos tempos das Solidariedades catalã e galega e começa um brilhante discurso no qual oferece o apoio da Lliga á Irmandade, pois nela enxerga, por fim, a organização capaz de encarreirar as paixões que latejam na Galiza. Lembra o papel de Augusto González Besada, o político galego eleito polo governo para respostar, desde o auto-ódio servil, as propostas do Deputado Morera i Galicia a respeito da cooficialidade dos idiomas espanhóis no debate há pouco sustido nas Cortes. Destaca a importância de que a Irmandade faça uma propaganda política verdadeiramente galega e diferenciada, destinada a conseguir a sua voz nas Cortes. A análise de Cambó sobre a política galega é clara (e válida para hoje):
«Galicia –sigue- ha producido muchos políticos, pero no ha creado una política. Cataluña no ha dado políticos apenas, y sin embargo, supo crearse una política.
Fijáos bien. Habéis tenido centenares de ministros gallegos, y nunca se ha hablado de representación de Galicia, porque aquellos hombres sólo ostentaban en el Gabinete la suya propia. Ahora, nosotros tenemos sólo dos nombres en el Gobierno y no oiréis hablar de otra cosa que de la política catalana.» («Los regionalistas. Discursos de Porteiro y Cambó» em Gaceta de Galicia, 3-12-1917)
Mas, o fundamental do discurso de Cambó é a importância que outorga ás eleições do vindoiro ano:
«Las próximas Cortes han de ser decisivas para España. No las cnvoca el Gobierno de ningún partido; y, por lo tanto, no podrán ser disueltas por la caída de ningún gabinete. Durarán el tiempo legal y darán testimonio y fiscalizarán cuanto en el trascurso de cinco años ocurra. [...]
Galicia debe ir a ese parlamento con representación propia. Es preciso que en estas Cortes venideras esté el alma gallega. Para ello estará siempre nuestro concurso.
Tengo la impresión que del resultado de las elecciones en Galicia dependerá la estructura de las Cortes.» (Ibidem)
E, a promessa de manter os acordos da Assembleia de parlamentários de Barcelona:
«En cuanto a nosotros, iremos a ellas manteniendo íntegras, sin escamoteos de ninguna especie las conclusiones de la Asamblea de parlamentarios.» (Ibidem)
O acto findou com «Els segadors», que foi respondido polo coro de galegos entoando o «Hino galego». Porteiro e Sanz, subidos numas cadeiras e rodeados da multidão, proferem vivas à Catalunha que são mui celebrados. São acompanhados por uma manifestação popular que canta «El Segadors», entre vivas, ao hotel dos galegos. Alguns galegos presentes começam a cantar outras cantigas galegas, às quais se somam Porteiro, Sanz e Vilar Ponte. Da porta, Sanz dirige breves palavras á multidão. Porteiro, aclamado e abraçado, dá um possante: «Visca Catalunya rica e plena», que enche a rua de brados e aplausos.
No Institut d'Estudis Catalans, em 30 de novembro, Aurélio Ribalta ainda pronunciaria a palestra «A personalidá filolóxica de Galicia» e Pita Romero falaria no Ateneu barcelonês em 3 de Natal sobre literatura galega. Segundo o amigo Antón Capelán (op. cit., p.100), as versões catalãs das duas palestras seriam recolhidas nos números de Fevereiro e Maio de 1919 dos Quaderns d'estudi, mensário do Institut d'Estudis Catalans, dirigido naquela altura pola mão direita de Prat em temas culturais: Eugénio D'Ors (naquela ainda Xênius).
Finalmente, fruto desta embaixada seria publicada, pola Juventut Nacionalista de Barcelona, uma raríssima e muito bela selecção poética de Rosalia, preparada e editada por Ribalta (na sua ortografia, daquela uma opção com força) e mais a publicação do volume Poesies gallegues extretes del llibre titolat Cantares Gallegos traduit per Joan Mati i Trenchs.
Cambó visitará a Galiza em 17 de Natal desse ano e achegará os dinheiros para a compra do jornal EL NOROESTE. Aventura precisa para a propaganda eleitoral, que fracassará amargamente polo choque de interesses entre a esquerda galeguista e a direita catalanista, não sem antes ter servido como plataforma para o fundamental suplemento Nós: páginas de cultura e para a edição dos 17 volumezinhos de Terra a Nosa!: Biblioteca popular galega, primeira editorial com sucesso e a sério da Galiza. Voltará ainda em Setembro de 1929, naquela altura visitará a sede do SEG e pronunciará aquelas elogiosas palavras sobre a cativa mais «xúrdia» das nossas antigas instituições culturais.
Notas:
Dos discursos de Cambó e Porteiro de 28 de Novembro, existe um amplo extracto em «Propaganda regionalista. Extracto de los discursos pronunciados por los Sres. Porteiro y Cambó en Barcelona», em Gaceta de Galicia, 11-12-1917.
Foto, em Anuari de Catalunya 1917, dirigit per A. Rovira i Virgil, Barcelona: Miverva, 1918, p.58
[Em primeira linha. Leandro Pita Romero (frente), virado: Luís Peña Novo, em presidência: Rovira i Virgili (?), Antóm Vilar Ponte, Francesc Cambó, Rodrigo Sanz, Raimom d'Adabal, Lois Porteiro Garea, Aurélio Ribalta (?) ]
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