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De Cânones e Canões Um contributo para o Dia do Orgulho Neofalante (1 de Outubro): LOIS PORTEIRO GAREA, neofalante
Domingo, 1 Outubro 2006 (7:00)

Lois Porteiro Garea (1918) Para Miguel Garea Garea, vir bonus et doctus

Por Ernesto Vázquez Souza

«Nos hallamos en un momento decisivo y por eso tenemos que suplicar a la prensa, libre de prejuicios, que nos preste atención, porque este movimiento tiene mayor importancia de lo que algunos suponen.

Comenzamos por constituir colonias espirituales que sólo pretendían demostrar, como dijo ya el Sr. Peña Novo, que no nos avergonzamos del gallego.

Pero al estudiar de cerca el lenguaje y hacernos cargo de los ultrajes que se le hacían, vimos como una raza que para llorar y para cantar usaba un idioma propio se veía obligada a emplear un mal castellano para rezar.

Comprendimos que habíamos de tratar un problema político, porque tropezamos en nuestro camino con el caciquismo.» Lois Porteiro Garea, 1917.
[+...]

Um dos vultos mais importantes, impressionantes e importunantes de entre os pais do movimento nacional e neofalante que constituíram por volta de 1916 as Irmandades da Fala, é sem dúvida o luguês LOIS PORTEIRO GAREA (16/11/1889-28/10/1918). Para mim, ele é o maior teórico do nacionalismo político desde Murguia. Com Peña Novo e Viqueira forma uma trinca política de avançada, estratégica, linguística e socialmente muito por cima dos Risco, Vilar Ponte, Castelao e mesmo do Bóveda anterior a 1933.

Activista, brilhante líder estudantil, primeiro concelheiro nacionalista de Compostela (1916-1918), professor de direito administrativo, jornalista, orador, autor de uma tese intitulada: El sistema parlamentario en España y sus relaciones con el caciquismo (1914), progressista, defensor dos direitos civis das mulheres, pioneiro em usar o galego em público, protagonista da primeira campanha eleitoral à que se apresentou um grupo nacionalista galego (1918), defensor da federação ibérica e da unidade da Galiza com Portugal, um dos máximos impulsores do contacto com a Catalunha política e definidor da passagem do cultural ao político do galeguismo das irmandades.

Porteiro, é pese a tudo -ou precisamente por isto- um outro dos desconhecidos. Porém, e como correspondem a Porteiro iniciativas fenomenais e precursoras que podem fazer arregalar os olhos aos leitores do PGL, imos recuperar cinco momentos de figura.

I. A entrada do uso do galego na universidade.

Na primeira década do Século XX, Porteiro, é um dos primeiros activistas estudantis junto Santiago Carro, Nicanor Crespo, Fernández Mato, Xaime Quintanilla, Fuciños, e o próprio Castelao, que alentados por Salvador Cabeza de León e Armando Cotarelo Valledor (muito activos em política na primeira década do século) tomam consciência da necessidade de galeguizar a universidade.

Porteiro foi um dos principais líderes no conflito gerado pola negativa do reitorado e Ministério à proposta de Gumersindo Busto para constituir a Biblioteca América, em 1909. Momento em que os estudantes, ao apelo de Busto, conseguirão dobrar a vontade do claustro e encetarão uma tradição de activismo estudantil continuado e atento à sociedade e política galega. Entre 1910 e 1911 participará abertamente desde a associação estudantil Joven Galicia na mobilização anticaciquil e agrária.

Joven Galicia destacará ainda polo seu posicionamento na reivindicação da Cátedra de Língua e literatura Galaico-portuguesa, que o Ministério pretendia instalar em Madrid e não em Compostela. A campanha encetada a fins de 1910 polo professorado (com um artigo de Juan Barcia Caballero, o regionalista conservador seguido dos seus colegas Armando Cotarelo e Salvador Cabeza de León) seguiu-se de uma reivindicação estudantil organizada, com destacado protagonismo de Ramón Fernández Mato, que teve ampla repercussão (comícios, encontros, artigos, comissões) na consciência galeguista dos moços universitários.

Doutorado em Madrid e prémio extraordinário, renunciará a uma carreira que se promete brilhante na capital, para retornar à Galiza. Em 15 de Março de 1915, Porteiro toma possessão da vaga de auxiliar de Direito Civil na Universidade de Santiago. Secretário da Faculdade e temporariamente Secretário-Geral da universidade, foi um pedagogo dinâmico e moderno, mui apreçado polos alunos.

Como docente, inaugurou com uma palestra em galego, em 16 de Setembro de 1915, «A transformación do direito civil pola gran guerra», no Paraninfo da universidade compostelana, uma prática que não terá a sua continuidade até os anos vinte e trinta com os actos organizados pola Federación Universitária Escolar dos Carvalho Calero, Seoane, Manteiga, Fernández del Riego...



Lois Porteiro Garea, a ler e com bigode (1915)


II.A associação por vez primeira do problema linguístico da Galiza à reivindicação política. O que será manifestado em jeito de programa concreto e com uma pinga de subversão estética em três discursos fundamentais.

Nos 12 pontos do «Discurso do dr. Porteiro ô fundarse a hirmandá en Santiago» (28/05/1916), para além do libre-cambismo, da reivindicação do direito civil próprio para Galiza, da autonomia, da obriga da administração e da justiça de saber galego, e de vários temas económicos (II. O Renacimento hispano, e a Guerra, III. A conciencia do nosso pecado, IV Amar a España e á Galicia) já se destaca a integração conceptual do direito individual e da soberania colectiva com o problema linguístico (I. Falar i escribir galego como seipamos).

Também lamenta Porteiro, neste discurso que não se queira «defender o galego [...] como meio de intelixencia com Portugal e a parte de América por el civilizada» (V. A nosa posición n-o mundo) e do menosprezo da música (X. O arte. A música galega). A importância da música «linguaxe da i-alma nos momentos subrimes», como parte do renascimento cultural implica o desenvolvimento dos grupos e massas corais, obriga ao estudo e ao apoio das manifestações e festas populares. Da música passa-se a poesia e o papel de Cabanillas (XII) como vate sucessor e proa da literatura nacional emergente.

Em 11 de Fevereiro de 1917 (aniversário da I República), Lois Porteiro aparece vestido de elegante e subversivo fraque no salão do Casino republicano da Crunha, para dar uma palestra que se converteria em acontecimento político e social. Nela, em galego, anunciava-se a passagem das Irmandades, de simples grupo de «Amigos da fala» a organização com projecto político, afim -mas diferente- do Republicanismo.

Os efeitos foram contundentes. Por uma banda, deram-se de baixa das Irmandades os elementos só regionalistas, culturalistas e espanholeiros, arrepiados pelo salto à política radical. La Voz de Galicia, até a data impressora de ANT, bota o semanário das suas máquinas e passa a fazer-lhe guerra aberta desde as suas colunas (até hoje). Pela outra, os chefes republicanos que viram com simpatia discipliente os irmandinhos, começam a perceber a passagem de poderosos activistas e moços à nova formação. O que redundará também em guerra aberta pela quota do mercado político.

Fica ainda um dos seus textos mais pragmáticos: A los gallegos emigrados (1918). Texto menos polémico, mas de orientação possibilista, destinado à construção de um modelo de financiamento «à irlandesa», para a constituição de escolas, editoriais, imprensa, um Instituto de estudos galegos...

A análise da panorâmica do capital e a imprensa, era unha evidência para o nacionalismo político daquela altura. A acção das colectividades e particulares emigrados podia romper esta situação de desgaleguização (uma geração ainda?) e, nisso, incide Porteiro:

«La ayuda que no nos presta el comercio, la industria y la banca –¡esta banca desnacionalizada, dragadora de nuestro capital, que lo enterró en valores extranjeros empobreciendo el propio mercado, miope, sugestionada por una serie de errores!- han de proporcionárnosla con el tiempo los industriales y comerciantes gallegos instalados en América, que nada tienen que temer del cacique gallego.

Además, creo yo –y este es un criterio personal que no expuse en ningún escrito ni discurso- que nuestros comerciantes e industiales tardarán aún una generación en galleguizarse.» (La acción de los «americanos», p.21)

III. O protagonismo no reencontro com o activismo catalanista. Que terá um carácter continuado e pessoal com Cambó e no qual destaca a já comentada visita em Novembro de 1917, da turma de galeguistas, a Barcelona e na complexa compra do jornal crunhês El Noroeste.

IV. O abrente da campanha eleitoral de 1918, a primeira em que se usou o galego e a primeira em que se apresentou a deputado uma proposta nacionalista galega. Mas que além de evidenciar que a aposta nacionalista tinha futuro, logrou por em evidência o sistema caciquil e corrupto da restauração.

Capítulos estes dous que, por problemas de espaço, ficam comprometidos para mais adiante, pois o que agora me interessa destacar é:

V. A melhor proclama NEOFALANTE que conheço. Reproduzo um trecho que pertence ao corpo do «Discurso do dr. Porteiro ô fundarse a hirmandá en Santiago» publicado primeiramente, como solto em ANT (A Nosa Terra, nº3, A Crunha, Dezembro de 1916):

«FALAR Y-ESCRIBIR EN GALEGO, COMO SEIPAMOS»

Aquí me tedes, pesaroso e triste por non corresponder a intensidade do momento: ledo e venturoso, xa que por moi mal que fale, sempre me alumearía o lóstrego do ideal que nos xunta hoxe, e que dend’antano latexa n-o noso corazón.

Escribo en galego e escribo mal. ¡Qué queredes!...Nunca hastra hoxe, escribín. Xamáis mo ensiñaron nin eu me preocupei dó deprender! E agora, pregúntobos: si podo escribir –mal, todo o mal que vós queirades- no idioma que non deprendín nas escolas, nos epitomes nin nos dizionarios ¿n’e verdade qu’isa lingua debe ter raices moi fondas no meu peito, na y-alma da miña raza cando non-a enterraron para sempre os abandonos alleos e os propios? ¿N’e verdade qu’ese idioma é unha realidá forte e latexante que nós temos esquencida, pro que vive no noso esprito e que ten qu’esnaquizar a lousa qu’o cobre, sempre que fagamos ensamen de concencia e nos dispoñamos á recontar e cribar os valores que forman o edificio da cultura, e as espranzas da raza?

A redimir este idioma do aldraxe que d’él fan, non os alleos, que non sinten nin pensan n’él e non teñen por qué estimalo (bastáralles si acaso gardarlle os respetos debidos), sinón os propios, quizáis nosoutros mesmos, encamiñánse a «Hirmandade dos Amigos da Fala»; e como o idioma é sempre verbo d’un mundo de pensamentos e sentimentos, diferente dos outros no seu molde pol-o menos, a chamada para defensa do pol-o menos, a chamada para defensa do idioma esquecido, é primeiramente, un requeremento de ensamen de conciencia regional. Luis Porteiro Garea. Profesor da Universidade compostelana.

Este texto, para além de motivador para qualquer um que pretenda escrever em galego é muito interessante para a compreensão do jeito em que o galego se aprendeu tradicionalmente e como passou a ser escrito, como podia ser recuperado e como esta recuperação passava inevitavelmente por um processo de conscienciação nacional (regional no texto). Isto é, política e social para além de linguística. Linguística política, que diria António Gil.

Acho que os erros exagerados (ainda poderíamos acrescentar um par mais) polo autor fazem parte, como o fraque, da estética de subversão anticolonial do neofalante. Pessoalmente, acho que este trecho descreve muito bem a sensação que todos temos e não damos tirado ao empregarmos este idioma que não nos ensinaram nas escolas e mal aprendemos como pudemos.

A história do galeguismo, da reivindicação da língua e a cultura é um processo descontínuo que, como sabemos, repete umas mesmas descobertas, posicionamentos, debates e contradições. Caracterizados por uma sequência, mais ou menos comum, que leva do individual ao colectivo, modificada em função de coordenadas de classe e circunstâncias sócio-económicas e sócio-políticas. Dos grupos e redes de que se forma parte.

A prática de galego escrito é decisão pessoal e dolorosa, tal como o destaca Lois Porteiro Garea. Os mesmos problemas de qualquer um de nós: alfabetização em castelhano; ausência de material de recurso: gramáticas ou dicionários; carências de tradição impressa (e as raríssimas compostas por uma série de variantes notáveis); comparação com o falado familiar, local e geral até destilar uma escolha individual em conflito com a sociedade e a política.

E isto não vai mudar. Não enquanto as soluções e as propostas continuem no individual e na vontade particular, como já disse não há muito o Valentim Fagim neste site. Sendo um pouco humildes, em nenhuma Norma das quais existem ou existirão, há tanta cousa. Não é muito diferente do que individual ou em grupinhos foram improvisando os nossos bisavós das Irmandades, os avós de Galáxia, os pais escuros dos anos escuros, ou os irmãos mais velhos um tanto tímidos que nos precederam.

Levo vinte anos tratando de aprender a escrever e falar com jeito. E ainda estou neste ponto. Pesaroso e triste, porque a minha prosa não corresponde à intensidade do momento. Ledo e venturoso, porém, já que por mui mal que escreva, sempre me alumia o lóstrego do ideal que nos convoca hoje no PGL, que desde antano lateja no nosso coração.


Para saber mais:

PORTEIRO GAREA, Luis:

- El sistema parlamentario en España y sus relaciones con el caciquismo. Tesis para el Grado de Doctor en Derecho, Imprenta de Juan Pueyo, Madrid, 1914.

- Discurso do Dr. Porteiro ô fundarse a Hirmandá en Santiago, (28-Mayo-1916), Tipografía galaica. Hirmandade da Fala. Cuadernos de propaganda. v.1, Santiago,1917.

- «Opiniones sobre el regionalismo» em Gaceta de Galicia, 15-1-18.

- «Principios políticos y económicos que se compromete a defender e apoyar co voto no Parlamento, si a él vai, o candidato por Celanova, LUIS PORTEIRO GAREA» em Gaceta de Galicia, 25-1-1918. O mesmo em: «Programa electoral de Luís Porteiro Garea ao distrito de Celanova: principios políticos e económicos que se comprometía a defender e apoiar co seu voto no parlamento español», : Terra e tempo, 136 (Out./Dez. 2005) ; p. 46.

- «Verbas dun loitador. Cambó non ten a culpa», em A Nosa Terra, 69, 15-10-18.

- A los gallegos emigrados, Propaganda das Irmandades da Fala, La Papelera Gallega, La Coruña, 1918.

- Un Mensaxe a García, Terra a Nosa 0, Prensa Gallega S.a., El Noroeste, A Cruña,1919.

- Discurso do dr. Porteiro ó fundarse a Irmandade da fala en Santiago no ano 1917 . 2ª ed, P.G. Grupo de Compostela. Cuadernos de propaganda 1º, Nós, Santiago, 1932.

CORES TRASMONTE, Baldomero: Luis Porteiro Garea, Santa Comba :TresCtres, 2005.

BELLO VÁZQUEZ, Raquel: Luís Porteiro Garea: (1889-1918), Ordes : Asociazón Cultural Obradoiro da História, 1998.

VILLAR PONTE, A..: “Apuntes para a nosa historia contemporánea. O loitador inesquecente”, A Fouce, 21, 15-10-1930.




Lois Porteiro Garea (1918)



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