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GZe-ditora As eleições do “ano da grippe”
Quinta, 14 Agosto 2008 (7:00)

Gze-ditora dá à estampa trabalho de Ernesto Vázquez Souza

PGL - A Gze-ditora, projecto electrónico da Associaçom Galega da Língua inserido no PGL, dá à estampa um novo trabalho, As eleições do “ano da gripe, da autoria do investigador Ernesto Vázquez Souza, responsável neste sítio pola bem sucedida coluna De Cânones e Canões. Como é habitual tentamos oferecer este novo número (já o 16) numa cuidada diagramaçom e, para fazer boca, publicamos um anticipo do mesmo.
[+...]

Por palavras de Vázquez Souza, este trabalho reflecte como «nas eleições de 1918 se luitou com certo êxito nalgumas frontes e como se manifestou publicamente a intenção política do movimento. O sucesso eleitoral é considerável dada a situação política da Galiza dividida em três grandes cacicados que semelham herdados desde os tempos do Caminha ou Pardo de Cela».

«Porém, - continua o autor- o jeito em que se desenvolveu a campanha trouxe novidades de interesse. O voto popular teve o seu peso onde pôde ser exercido com liberdade; praticou-se o meeting e aberto, aproveitando, segundo o modelo solidário, as feiras e, por fim, potenciou-se o uso do galego». A respeito da língua, Vázquez Souza salienta como a imprensa da época acusará o galego, «comme il faut, de: “jerga pintoresca, mezcla de portugués, español y esperanto”».

Para fazer boca publicamos o início do trabalho que disponibilizamos na íntegra e livremente em formato pdf e/ou para ser lido comodamente na internet (veja-se abaixo).

Se por algo se caracterizou o sistema de partidos turnantes durante o período conhecido como Restauración (segunda das protagonizadas pelos Borbóns) foi pelo pacto de Estado mediante o qual os dous grandes partidos, o Conservador e o Liberal, garantiam-se o controlo da representação parlamentar.

Um sistema simples nas alturas parlamentares praticamente reduzido aos dous partidos e algum outro (representando a Republicanos, Socialistas, Radicais ou Independentes) sem qualquer oportunidade de decidir, mas baseado numa complexíssima rede caciquil, apoiado pelo sistema mediático (regulado pela censura prévia e mais pela auto-censura econômica motivada pela capacidade das autoridades para retirar edições e fechar imprensas ) e pelo judicial a nível local e estadual.

A grandes traços o sistema era elementar e funcional: O Rei designava o candidato a Presidente do Governo entre os partidos com maiorias para governar. Em caso de ausência de maioria, tinha do monarca decreto de dissolução das Cortes.

Isto permitia a convocatória de eleições e mesmo que essas se fizessem à vez que se uma reforma da lei eleitoral. De qualquer jeito o Presidente tinha o poder de destituír dos seus postos políticos e administrativos os membros do outro partido maioritário e mobilizar os governadores, alcaldes e elites locais para conseguir nas eleições a maioria favorável que permitisse um governo estável.

Este jogo durou desde 1875 a 1923, com numerosos estados de exceção, dissoluções das Cortes pelo rei e numerosas arbitrariedades até a cena final com a Ditadura de Primo de Rivera. Era tão evidente a manipulação do processo eleitoral por cada grupo para garantir a vitória eleitoral em cada distrito, que quase tudo estava permitido a fim de conseguir o pucherazo. Mesmo com a implicação direta do Ministerio de Gobernación, encarregado de controlar a “fraude eleitoral” junto com os Governadores Civis.

A reforma do sistema de votação contra 1891 permitiu passar do voto censitário ao “universal”. Se até esse momento apenas votaram os “proprietários”, a aprovação do sufrágio universal (ma non troppo) fez surgir como necessidade a fraude eleitoral organizada e desenha a figura do cacique. Figura especialmente necessária pela fragilidade e dependência da Administração do Estado e a Justiça do Governo turnante e pela impossibilidade dos aparatos dos partidos de controlar politicamente certos espaços do extenso e complexo território espanhol. Mas durante as fases mais estáveis até era mesmo possível um pauto nas altas esferas que garantia o “reparto” de actas. Isto denominava-se “encasillado” que possibilitava “a eleição”, realmente o anúncio pela imprensa dos “resultados” antes das eleições. Isto culminou na figura do “cuneiro”, o Deputado – homem de confiança ou amigo político – que era designado por algum distrito que muitas vezes nem conhecia, nem ainda anos a representar se dignava a visitar. Chegava a tanto o “encasillado” que até podia dar-se a não realização dos sufrágios pela aplicação do artigo 29 da Lei de 1907.

Destarte os caciques, grandes e pequenos, jogaram um importante papel no controlo e aceitação de um sistema imperfeito. Se os grandes artelhavam a conjunção local dos interesses económicos locais com os políticos de Madrid, os pequenos regulavam os favores e os votos na base da pirâmide, funcionando como agentes fixos (fidelizados a uma família vencelhada a um dos partidos) ou simplesmente disponíveis para quem fizesse a melhor oferta.

A aparição contra 1891-98 de movimentos Regeneracionistas, Carlistas e a coligação de Republicanos, Radicais e Socialistas e Regionalistas permitira em alguns núcleos urbanos uns mínimos de resistência civil que com muitíssimo esforço conseguiam representação. Mas forças que até os êxitos eleitorais Catalanistas desde 1905 e especialmente desde 1915 serviam simplesmente para colorir o Parlamento e prosseguir a ficção.

Na Galiza após a fundação das Irmandades da Fala em 1916, vinha-se percebendo uma nucleização de um setor regionalista de velho com os setores políticos originários da pequena burguesia urbana emergente tradicionalmente federais e desencantados do voto republicano.

Desde 1917 o Discurso do Professor de Direito e Concelheiro em Compostela Lois Porteiro Garea vai perfilando uma estratégia política que em 1918, apoiado pelos contactos estabelecidos com a Lliga chefiada por Francesc Cambó e após os Acordos da Assembleia de Parlamentares de Barcelona em Junho de 1917, ameaçaram por um intenso momento, que retumbou na imprensa galega, o sistema clientelar da política galega.



Ernesto Vázquez Souza: As eleições do "ano da grippe"



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