Ana Belém Fernandes: «O associacionismo é o único carburante que pode mexer o motor da mudança neste país»

Ana Belém Fernandes: «O associacionismo é o único carburante que pode mexer o motor da mudança neste país»

05-02-2007



Continuamos a série de entrevistas a esmorganos e esmorganas

A Esmorga Blogue.- Após a boa acolhida da primeira entrevista, continuamos agora esta série através da qual visamos dar a conhecer o corpo social da Esmorga, apresentando desta volta uma quase «recém chegada». Falamos de Ana Belém Fernandes, «Belém», natural da aldeia de Andrade (Santo Amaro), em cheio no meio rural da Galiza profunda, onde também tem a sua morada. Tem 31 anos e trabalha na actualidade em Coren.

A Belém está a participar activamente na Esmorga, especialmente dinamizando tudo aquilo que tem a ver com o mundo da alimentação, a boa e consciente alimentação, sendo uma das máximas responsáveis pela co-organização das bem sucedidas «I Jornadas de Agroecologia» e impulsionadora dos «Almoços Temáticos» que se realizarão mensalmente no Centro Social da Esmorga a partir do próximo mês de Março.

Belém, estando no meio rural galego, por vezes tão conservador e pouco dado a estas dinâmicas, como é que nasceu o teu interesse pelo associacionismo e o trabalho activista no mesmo?

Bom, após ter conhecido Eduardo, um dos membros veteranos da associação Avantar do Carvalhinho, e tendo como ponta-de-lança a minha vocação pela poesia, fui convidada a participar nalgum dos recitais que essa associação organiza periodicamente em cada mudança estacional na vila do Orcelhom, em concreto numa taberna chamada «A Bodeguiha», isso deu-me pé a mostrar o meu interesse por realizar e dinamizar algumas actividades, tornei-me sócia e integrei-me a seguir na sua directiva, da qual continuo a fazer parte.

Avantar foi, pois, a primeira associação na qual eu participei e na qual eu apanhei experiência. Por sinal, Avantar é uma associação histórica entre cujos membros fundadores destaca a grande figura de Manuel Maria.

Falas da tua vocação por escrever e, de facto, escreves...

Sim, tenho vocação por escrever. Na realidade o de escrever começou como uma necessidade fisiológica minha, como a de comer ou qualquer outra. Precisava-o porque era uma maneira de exteriorizar muitos sentimentos,
muitos desejos, muitos pensamentos... e comecei a escrever para mim, como uma questão pessoal.

Era como colocar-me perante um espelho, era a melhor maneira de me ver.. escrevendo acerca daquilo que no momento concreto tocava o meu interesse, embora nem sempre tivesse a ver com temáticas combativas, por exemplo, relativas à língua, ou ao país, embora também estejam presentes, pois uma das situações marcantes na minha vida foi a discriminação que senti por falar em galego quando fui para o liceu fazer o bacharelato...

Neste momento fazes parte do grupo de poesia do «Clube dos Poetas Vivos». Conta-nos um bocadinho mais acerca desta nova experiência.

Bom, o do «Clube dos Poetas Vivos» surgiu após um recital realizado no ano passado em Vilar de Santos, durante o «I Festival da Mocidade», com Artur Alonso e José Manuel Barbosa. Acabamos por constituir uma pequena equipa para irmos por todo o país e transmitirmos através da poesia aquilo que pensamos, pois acho que a poesia é um meio magnífico para transmitir, embora nas consciências de muitas das pessoas continue a estar hoje em dia um pouco elitizada, mas eu tento romper com essa ideia e fazer da poesia um veículo para a reflexão, para fazer reflectir.

Essa é a essência deste grupo que está a caminhar e dar os seus primeiros passos com uma série de recitais por todo o país.

E utilizas sempre o galego na tua poesia?

Sim, utilizo. Já falei antes que a língua foi marcante para mim, mesmo para tomar determinada consciência após ter sofrido rechaço por isso. Agora estou a aproximar-me da Lusofonia, aos poucos vou percebendo melhor e optando pelo modelo de escrita que nos aproxime ou que mesmo seja o padrão português.

Mas profissionalmente tu és trabalhadora de Coren, portanto muito vinculada à alimentação e à sua produção. Achas que Coren é um bom exemplo de empresa e um bom modelo para a alimentação?

Há já 9 anos que trabalho em Coren, mas tenho muitas reparos no que diz respeito do seu modelo para o desenvolvimento empresarial e, nomeadamente, no que toca ao seu modelo de produção avícola ?que todo o mundo conhece, muito afastado do que é a minha ideia ao respeito...

Fala-nos um bocadinho mais acerca dessa tua visão a respeito da alimentação e, por sinal, do teu trabalho na Esmorga muito vinculado a esse campo.

Bom, eu reconheço que antes era como a maioria das pessoas, não reparava muito acerca do que comia e como comia. Após uma série de doenças físicas derivadas da alimentação, tomei consciência do importante que é saber alimentar-se bem, saber cozinhar bem e conhecer os alimentos e todas as alternativas e variedades que há. Em suma, aprender a comer e aprender a cozinhar, especialmente os vegetais, pois na Galiza fora do caldo, dos grelos, do cozido e da salada, há muito pessoal que não sabe fazer mais.

Por exemplo, as «Jornadas de Agroecologia» que organizamos no mês passado foram extremamente importantes para isso, pois pretendiam despertar a curiosidade na gente a respeito da alimentação que estão tendo, dar-lhes a conhecer uma alternativa ao que se está a mexer na alimentação e no seu mercado e, finalmente, que o pessoal se encontrasse cara a cara com produtores e produtoras que tentam produzir de uma maneira mais natural, sã e ecológica.

No campo da alimentação, agora estás a trabalhar na Esmorga nos chamados «Almoços Temáticos»...

Bom, os «Almoços Temáticos» que vamos organizar a partir de Março, visam potencializar a diversidade na alimentação, familiarizar o pessoal com a cozinha doutros países e da sua variedade culinária tão impressionante, por vezes superior à nossa, como é o caso do Brasil. Esperamos que sejam um lugar de encontro com outros alimentos e outra maneira de se alimentar, de alguma maneira continuam a visão das jornadas, mas agora voltadas para alimentações de determinados povos e culturas.

Na Esmorga és pois activista, nomeadamente, no campo da alimentação, mas como foi a tua chegada à Esmorga, quando é como é que a conheces-te?

Bem, a Esmorga já a conhecia na sua etapa antiga, embora não fosse até agora, neste novo caminho, que me animei a fazer parte do projecto e tornar-me sócia. Tinha já recebido a oferta com anterioridade de uma das pessoas vinculadas à Esmorga, em concreto do Lico, mas agora julgo que é um processo muito mais aberto no qual, aliás, me ofereceram trabalhar directamente e por isso acabei por me associar.

Ora, também é certo que determinados acontecimentos que se passaram na anterior etapa, como foi o litígio com a Câmara Municipal, fizeram com que me
fosse aproximando mais até que, por fim, decidi dar o passo. Em termos gerais, estou muito satisfeita em como vai decorrendo o projecto nesta nova etapa.

E qual o modelo da Esmorga de que gostarias num futuro?

Eu gostaria que a Esmorga fosse a revolução de Ourense, que estivesse presente em tudo aquilo que qualquer associação possa reivindicar, que apoiasse todo o mundo que o precisasse, que fosse o mais plural, aberta e democrática possível, que se tornasse no nexo de união entre todas as associações pois tenho claro que o associacionismo é, neste país, o único carburante que pode mexer o motor da mudança.

E sendo como és de uma zona rural, é possível que projectos como o da Esmorga surjam por toda a parte?

Bom, nos dias de hoje talvez ainda seja difícil fazer um projecto destes no meio rural, mas é possível caminhar. Há muita despovoação, mas podem-se fazer coisas, por pequenas que pareçam. Por exemplo, eu impulsionei uma associação de mulheres em Santo Amaro, a Associação de Mulheres São Brais, da qual fui Presidenta durante 4 anos.

Dessa associação fazem parte mulheres da zona, independentes politicamente e com vocação de construir e fazer associacionismo no meio rural, embora a actividade seja limitada o projecto é importantíssimo, só é conhecer como está nesses âmbitos muito do meio rural para reparar nisso.

Escrito ?s 00:31:31 nas castegorias: Associaçom, Entrevistas
por csesmorga   , 1408 palavras, 994 visualizaçons     Chuza!

1 comentário

Comentário de: David [Visitante]  
David

Moitos parabéns, Belén, por tan boa entrevista…

05-02-2007 @ 00:47
    A Esmorga somos cada vez mais pessoas que apostamos pelo activismo social e cultural comprometido com a realidade em que vivemos.

    Trabalhamos para promover a língua e a cultura galegas, a sensibilidade para com o meio ambiente e a solidariedade entre as pessoas e os povos.

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    O entusiasmo, o espírito positivo, o empenho e a diversão são as nossas ferramentas de trabalho para construir tijolo a tijolo um mundo mais justo e agradável para tod@s.

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