O APALPADOR CHEGOU NO DIA CERTO. Um texto de Antom Labranha

O APALPADOR CHEGOU NO DIA CERTO. Um texto de Antom Labranha

Escrito em 29-12-2009 Categorias: CELEBRAÇONS/ACTOS

O Apalpador chegou no dia certo

-Antom Labranha-

?Pensar, analisar, inventar... são a normal respiração da inteligência?
J. L. Borges (Pierre Menard, autor do Quixote?

Numeração

Queria era uma dúzia de sardinhas, pode ser? Acontecia num mercado qualquer. Continuo e, noutra loja, compro meia dúzia de maçãs. Há tempos disso, hoje é que vão por quilogramas.

Olha, pá!, que aqui vendem ostras por dúzias,... ali fritos, ovos, doces!

O facto de ter o número 12 muitos divisores próprios (2, 3, 4 e 6), dá para o sistema de numeração base doze interessantes vantagens: dois grupos de seis, -seis de dois-, três grupos de quatro -quatro de três- fazem o conjunto (doze); também é fácil decidir quanto é meia, terça ou quarta; se desenhamos fracções numa régua na qual doze fosse a unidade, terço seria 0´4 -quatro riscas- e quarto 0´3 -três riscas-. (Confronte-se com a régua usual -base dez-: terço 0´33333... impossível concretizar, e quarto 0´25 -duas riscas e meia: precisamos mais um nível inferior para fixá-lo).

Até foram quem de identificar doze animaizinhos no círculo imaginário do céu e, relativamente a eles, definir o Zodíaco. Foram...? Quem? Se calhar estamos a falar da civilização suméria, aquela que no solstício de Inverno celebrava o nascimento do Sol, parido do ventre da deusa Inunna -depois Isthar, Astartê, Afrodita, Maria,...- (Mesopotâmia, IV milénio a.C.; há indícios mas não certeza -é que os números, como os deuses e os rios, também não evoluíram em linha recta; apenas é que as rectas assim faziam; nem sempre-).

E quando na fim da noite do dia 31 de Dezembro tomamos rotineiramente doze uvas ao som de doze badaladas, talvez não estejamos cientes que foi preciso, nalgum arredado episódio da humanidade, decidir que o dia e a noite haviam ser divididos em doze partes (horas, que coincidem exactamente nos equinócios de Primavera e Outono). Melhor, digestivamente falando, teria sido utilizarem o sistema de numeração decimal, e o ano remataria com dez bagas, evitando engasgarmos com tanta frequência. Até que enfim, assim é que é a vida: uma sobre-produção de videiras no ano 1909 e um inocente ritual que se instala..., sobre um outro ritual precedente?

O céu que nos contem

Voltemos a olhada ao céu. Permitam-me rever o que já todo mundo sabemos. Há dois astros que regem, quanto ao essencial para o conhecimento humano, a vida na Terra: o Sol e a Lua. Ele tem dois ciclos a respeito de nós: um diário e um outro anual -que hoje explicamos pela rotação do nosso planeta arredor do seu próprio eixo, e pela translação á volta do Sol, respectivamente-. Ela tem um ciclo, no qual diferenciamos quatro fases.

Gostam de números, não gostam? Vamos lá fazer cômputo:
1.Doze são os ciclos lunares que cabem num ano. Mágoa a conta não esteja certa. É por isto que, embora por hábito fiquemos despreocupados, temos um calendário -chamado gregoriano, do 1582- tão estranho: doze meses, uns de 30 dias, outros de 31 e um outro de 28 ou 29 (estes com ajustes aperfeiçoados no que diz respeito os bissextos).
2.No total um ano são 365´24 dias, e um ciclo lunar dá para 29´53 , aproximadamente. Doze ciclos lunares fazem só 354´36 dias, precisamos mais outros 11 dias.
3.Os antigos egípcios raciocinaram de maneira muito simples: doze meses de trinta dias, e cinco dias ?epagômenos? -por indução lógica-, fora de qualquer mês e, cada quatro anos, acrescentavam um sexto dia.
4.Olha!, nos primeiros calendários romanos havia 60 dias epagómenos. Eles era que começavam em Março -preparando as legiões, mês de Marte, deus da guerra- e terminavam em Dezembro (o décimo). Foi depois que decidiram incorporar dois novos meses (Janeiro e Fevereiro) e assim, com idas e vindas, até tempos de Júlio César (calendario Juliano, 49 a.C.), que dá a base do posterior gregoriano.
5.Imos lá fazer 11 dias epagômenos. Os evangelhos não dizem quando acontece o natalício de Jesus Cristo. Foi em tempos de Constantino I (S. IV) que se faz coincidir com os festejos do nascimento do Sol (o dia ficou um bocado deslocado pelos ajustes do calendário juliano). Não se importem agora com isso e contem comigo: desde o começo do 21 de Dezembro, dia do nascimento do Sol -solstício de Inverno- até ao fim da noite do 31 há 11... dias!
6.Todas as antigas culturas e civilizações festejavam o nascimento do Sol, e em todas se ofereciam presentes, invocações á boa sorte.
7.É o solstício, a seguir onze dias de festejos -dias que não são computados e á fim o Ano Novo trazido da mão do Apalpador ou Pandigueiro, com os brinquedos para os meninos e meninas... no dia certo!
8.Duas grandes jantaradas sinalam o tempo ?epagômeno?, chamadas consoadas, do antepositivo latino consol-: consolar, alentar, animar. Foi costume antiga deixar um lugar vago à mesa para o morto ou deixar a mesa cheia de iguarias para as "alminhas".

Os reis magos

Os evangelhos também não dizem quando é que chegaram os ?reis magos?, mas foram colocados no 5 de Janeiro (não no 6, nesse dia já acordamos com os presentes). Fixaram o natalício no alvorecer da manhã do 25 de Dezembro e os ?reis magos? chegam na noite -com certeza bastante antes das 24 horas-: são 11 dias e tal. Embora não seja necessária a coincidência, pois impõe-se desde o poder absolutista, há cautela na colocação das datas.

E também não dizem que fossem três nem que fossem reis, senão sábios -os evangelhos apócrifos contam que eram discípulos do astrólogo Zoroastro-. O que si dizem os evangelhos oficiais é que levaram ouro, incenso e mirra:
- Ouro, metal apreciado, de valor simbólico (nobreza) e material.
- Incenso, obtido de árvores africanas e asiáticas do género Boswellia, contem irihodrocannabonila, uma droga ligeiramente aditiva: o aroma faz mais profunda a respiração, relaxando a mente e, por tanto, ajuda à meditação.
- Mirra, resina obtida do espinho, árvore de origem africana, é usada na preparação de medicamentos. Os egípcios empregavam-na no culto ao deus Sol e como ingrediente na mumificação.
Além doutras interessantes interpretações que possamos fazer, uma conclusão é clara: não levaram brinquedos ao menino. Até que enfim, assim é que é a vida: uma doutrina que, já no S. IV, precisa redefinir-se e um inocente ritual que se instala... sobre um outro ritual precedente.

Gratidão

À Gentalha do Pichel pela sua site de divulgação e ás pessoas que fizeram achegas nos comentários; a mesma coisa posso dizer a respeito da AGAL; ao José André Lôpez Gonçâlez pelo seu estudo primordial; aos Taboada Chivite, Cuevilhas, Leite de Vasconcelos,... pelos seus trabalhos precursores; a todas as pessoas que colaboram nas inúmeras sites que consultei.

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