Antropologia

Luzia Oca

Eu sou antropóloga, e desde há pouco tempo, doutora em Antropologia. Tudo o que teve e tem a ver com o meu campo de estudo se iniciou no ano 1998 quando fui trabalhar a Burela imersa num processo de integração no projeto da Rede Galega de Loita contra a Pobreza, e quando cheguei lá descobri, logo de início, que detrás da integração que se vendia não existia tal coisa e na verdade era tudo uma mentira.
Trabalhei durante 3 anos em Burela e acabei por sair em 2001, depois de o projeto ter sido apropriado pelo Concelho, mas nunca abandonei a ligação com as pessoas cabo-verdianas. No verão de 2000 fui até lá pela primeira vez e desde aquele momento fiquei envolvida e ligada a essa terra, tanto profissional quanto pessoalmente.
Anos depois, entre 2007 e 2009, acabei formando parte durante 2 anos dum projeto de empoderamento com mulheres em Cabo Verde (em parte das zonas de origem das mulheres que estão em Burela) com a mesma metodologia que a do projeto REGAL, que também foi muito interessante e que contribuiu para o meu trabalho de pesquisa.
Desde há 11 anos e até o momento estou trabalhando na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD). Comecei como professora convidada num curso que havia de antropologia aplicada, mas agora trabalho em outros cursos, mais virados para os serviços sociais, para as ciências da cultura, etc… e tenho trabalhado muito sobre metodologias de intervenção participativa, género, migrações e nomeadamente o relativo a Cabo Verde.

Luzia apresentou a sua tese, intitulada Caboverdianas en Burela (1978/2008): Migración, Relacións de Xénero e Intervención Social, em dezembro de 2013, trabalho que também foi ganhador do Prémio Vicente Risco de ciências sociais… Para além de te parabenizar pela tese, pelo prémio e pelo sucesso conseguido… Qual é o quadro geral da tese? Como surgiu o projeto e como foi a experiência durante todo este tempo?
O tema fundamental da tese são as vidas das mulheres cabo-verdianas da Marinha e tudo o que as rodeia, partindo da sua sociedade de origem, Santiago de Cabo Verde, tendo em conta as relações de género ao longo da sua história e a existência de uma ampla comunidade transnacional. Realiza-se uma reflexão, ao mesmo tempo, sobre a potencialidade dos métodos participativos, baseados no enfoque do empoderamento, partindo das intervenções realizadas com o coletivo em Burela, e a reação do poder político, neste caso local, para acabar com o processo de empoderamento iniciado pela REGAL.
O quadro teórico da tese é o quadro feminista das teorias transnacionais, visto do ponto feminista, e as unidades de análise foram a rede migratória e o grupo doméstico, quer dizer, vi qual foi o papel que tinham as mulheres na rede migratória mas também as posições no doméstico, no mundo do trabalho das mulheres da Ilha de Santiago, de maneira específica, já que não tratei todas as zonas cabo-verdianas mas sim as de várias localidades da costa ocidental, que foram as que emigraram para Burela.
A experiência foi muito boa. Aprendi muito, como antropóloga, e fomos conseguindo mudar coisas a nível de intervenção e também que em Burela se falasse de Cabo Verde, que até esse momento não se sabia muito, mas tivemos problemas com o concelho de Burela que ficou com a nossa intervenção e apropriaram-se de todo o trabalho… e isso foi um momento muito duro para mim e por isso decidi ir-me embora porque a situação não podia continuar.

Podes contar-nos que foi então o que aconteceu? Qual foi a reação das instituições públicas em relação a isto?
O que aconteceu foi que quando acabou o projeto com a REGAL o concelho de Burela do PP se apropriou da intervenção, e deu-lhe a volta. A metodologia que utilizámos era participativa e da perspetiva de género e usava o método etnográfico, o método que utilizamos na antropologia para investigar, sendo investigação e ação ao mesmo tempo: fazer observação participante, acompanhamento de pessoas, aprender a sua língua, etc… Foi tudo à vez porque o projeto era de intervenção, mas quando eu chego a Burela a finais do 98 não se sabia nem quantos cabo-verdianos havia, nem que problemas tinham, nem nada. Houve que investigar, definir os problemas e intervir para solucionar. E solucionámos alguns (uns de todo, outros parcialmente…) mas o que se passou é que depois veio o concelho, na época do PP no Concelho, na Junta e no Estado e ficaram com a intervenção que tínhamos feito nós e que continua até hoje. Eles converteram essa intervenção numa intervenção muito assistencialista e que não presta nenhuma atenção a problemas reais que possam ter as pessoas de Cabo Verde em Burela.
Hoje tudo continua assim. No concelho criaram um serviço de atenção à população imigrante, altamente burocratizado e sem trabalho direto com os diversos coletivos migrantes.
É certo que do trabalho feito por nós ficou um pouso mas as associações que estiveram a se empoderar, hoje abandonaram a luta pelos direitos da cidadania, a consideração da integração do ponto de vista multidimensional: o mundo laboral, os direitos (por exemplo, os filhos não tinham nacionalidade espanhola o que foi a ponta de lança) e o tema cultural.
Em relação aos direitos, pois por exemplo, quando nós chegámos, as mulheres dependiam dos homens legalmente e não tinham direito ao trabalho pelo que havia que fazer um trâmite que eles desconheciam, a associação estava morta, não acediam aos serviços sociais, não lhes davam o cartão de família numerosa ou bolsas de estudo e tinham muitos défices. Nós o que fizemos foi solucionar estes problemas mediante a intermediação e a consciencialização.
Eu acabei por ser contratada pelo concelho por pressão das cabo-verdianas e embora não tivessem muita vontade de me aturar, tiveram de me contratar, mas advertindo-me que só queriam trabalhar o tema cultural. Mais nada. E claro, a cultura está ligada ao social, é um produto do social e do político.
Mais tarde, na minha experiência em Cabo Verde, comprovei que as metodologias deste tipo não agradam ao poder, ainda que as utilize no seu discurso. Depois de dois anos de trabalho muito satisfatório com as mulheres de Ribeira Grande de Santiago, a AECID (Cooperação Espanhola) não nos renovou o financiamento, e conseguimos continuar graças a outras instituições, como a ONU, o governo de Cabo Verde ou o Fondo Galego de Cooperación. Hoje as mulheres que faziam parte deste processo viraram cooperativa, demonstrando que os processos deste tipo são longos, mas dão frutos quando as pessoas se envolvem.

A imagem que tivemos @s galeg@s em relação à integração d@s cabo-verdian@s em Burela é a de uma integração tranquila, modelar e sem nenhum conflito…
A integração perfeita é um mito. Todo o mundo pensa isto porque os médios de comunicação tanto o cacarejaram. Na tese há uma parte em que analiso os discursos jornalísticos sobre a comunidade e a construção do que chamo o “mito da integração perfeita”, que continua vigente.

P1040431Qual foi, à luz dos resultados obtidos, a verdadeira relação entre a comunidade cabo-verdiana em Burela e a comunidade galega? E qual foi(é) o papel das mulheres de Cabo-Verde na Galiza?
A relação entre os cabo-verdian@s e galeg@s é uma não-relação. Não há um gueto porque eles vivem por toda Burela ainda que há mais concentração numa rua ou numa zona, mas até 1998 as relações entre galeg@s e cabo-verdian@s limitava-se simplesmente a questões laborais com algumas exceções. Viam-se crianças irem à escola mas depois ao voltar para a casa andavam entre el@s e é possível que as mais velhas, que hoje têm 25 anos, vinte e tantos, sejam dentro de todo o coletivo as que têm mais relações diversas porque eram poucas (nos anos 90 eram uma menina por aula) por serem mais novas, e hoje o coletivo adolescente e jovem é muito mais grande, e não necessita tratar com os brancos para nada.
Na análise inicial para o projeto BogAvante vimos que havia um modelo de separação. As relações interpessoais só se mantinham nas relações laborais. Relações de amizade e de parelhas interculturais não existiam. Uma ou muito poucas mas podem-se contar com uma mão. Para mim isso são os verdadeiros indicadores da ausência de integração.
Depois, a partir dessa intervenção nós fizemos a primeira festa cabo-verdiana aberta no 99 com muito sucesso e a partir daí criaram-se interações e a partir daí sim se deram algumas relações interpessoais, apareceu o grupo Batuko Tabanka que, ainda que surgiu na etapa da intervenção municipal, eu penso que foi resultado do BogAvante, do primeiro projeto de intervenção.
Trabalhámos muito o tema da cultura porque esta se vivia unicamente nos espaços privados da casa e a comunidade, sem a partilhar com o resto da sociedade. A cultura acabou por se converter numa ferramenta primordial para a integração, aumentando a autoestima do coletivo cabo-verdiano em relação à sua própria identidade.

A tua área de pesquisa tem a ver com o estudo das migrações e a relação destas com o género e as metodologias para a intervenção social. Do ponto de vista do género, qual achas que é o rol da mulher em qualquer processo migratório? E como foi acolhido pela comunidade cabo-verdiana que a pesquisadora deste trabalho fosse uma mulher (tu)?
Foi muito bom ser mulher porque o projeto inicial era para marinheiros mas eu cheguei ali e eles não estavam a trabalhar na pesca de altura, então tudo se estabeleceu via mulheres e elas são centrais porque ainda que vêm como esposas, foram elas as que estruturaram a comunidade e as que a representaram perante a sociedade e as instituições. Eu centrei-me nas mulheres e era muito interessante porque como elas não tinham aos maridos presentes, por trabalharem na pesca de altura, tinha a oportunidade de trabalhar mais à vontade e de analisar e intervir nos seus problemas, por exemplo.
São uma exceção na comunidade cabo-verdiana da diáspora. Há comunidades feminizadas, que vão ao serviço doméstico, mas no caso de comunidades mistas não há mais que eu saiba.
E foi importante ser mulher porque eu para elas era como uma filha (eu estou na geração entre elas e as filhas) e os homens me acolheram muito bem também porque não me viam como uma pessoa perigosa. E isso ajudou porque se fosse um homem teria sido muito diferente. Quando fui era muito nova, tinha 26 anos, inexperiente, mas também com muita força e muita ilusão com o trabalho… e o mesmo em Cabo Verde. O acesso ao mundo feminino não é fácil para um homem, e portanto, sendo mulher, aceder ao mundo feminino é fácil e ao mundo masculino também! e isto foi um elemento muito importante (fui aos barcos tirar fotos, etc…).
Em relação ao género e a processos migratórios… o género estrutura as migrações. Não é um componente mais. É um componente estrutural. No caso de Cabo Verde (Ilha de Santiago) só houve migrações femininas a São Tomé. Foram umas migrações forçosas pela fome. Quando acabou a escravatura, os portugueses ficaram sem mão de obra gratuita para plantações extensivas e enviaram cabo-verdianos que morriam de fome em barcos. Lá chegavam como contratados, mas depois era o mesmo que a escravatura. Havia uma figura legal mas mais nada. Em Burela há algumas pessoas que passaram por São Tomé na sua infância ou juventude…
Mas nas migrações a Europa (a partir de 70), e referindo-me às mulheres de Santiago, foram sempre como esposas, seguindo aos maridos, e não têm a ver com outro tipo de migrações de outras ilhas (São Nicolau, Santo Antão ou Sal) de tipo feminizado, com destino ao serviço doméstico. Nestas ilhas são elas quem emigram.
Que foi o que se passou? Que aplicando o quadro teórico, em Burela estava havendo um câmbio muito grande e se atendemos à rede migratória e o percurso seguido para chegar a Burela, até 98 era irregular conseguindo entrar por Lisboa, sempre eles primeiro e depois elas como esposas.
No entanto, agora, a partir de 98 cria-se um roteiro legal, muda a lei para estrangeir@s e aparece uma figura que é um advogado e consegue trazer pessoas de maneira legal. As pessoas de Burela fazem um trabalho muito grande e investem capital económico e social para trazer pessoas parentes. Naquela altura (1998) havia 150 pessoas. Hoje umas 550. Até 2008 havia 440 ou seja que se triplicou.
Por que entraram tantas mulheres? Porque há muitos mais trabalhos feminizados, que os homens não queriam: serviço doméstico, cuidado de crianças, restauração… Os homens sempre vieram ligados à pesca e só num breve período (a partir de 2005 até a crise) à construção.
Neste período (1998/2008), as mulheres inicialmente vinham como esposas, mas a oferta de trabalhos em setores feminizados, fez com que segundo avançava a década, foram chegando mulheres não unidas a homens, a maior parte delas, mães solteiras. Este grupo supõe uma quarta parte das 69 mulheres que chegaram neste período, sendo a primeira vez que vem migração laboral feminina. Estas mulheres autónomas vinham com um projeto migratório pré-fixado pelas suas famílias de cá e de lá: ganhar dinheiro e depois trazer os filhos…. A maioria delas juntou-se com outro homem, contrariando o projeto inicial sem conseguirem em muitos casos trazer os filhos. Nessa migração laboral feminina, não constituída por esposas, está a primeira diferença.
A outra diferença é que quando eu chego a Burela a maior parte dos homens estão ausentes no mar, e a família é matrifocal, com a exceção de 3 dias ao mês que volta o homem. O resto do tempo… há um pouco de ambivalência de que o homem não esteja porque, embora possa ser difícil ou triste ou o que for, dá-lhes muita liberdade a elas. Isto deu pé a que elas se empoderassem, graças à intervenção da REGAL. A partir de 2004, 2005, com a inserção de alguns homens na pesca de baixura, vêm a casa de forma diária ou semanalmente, muitos vão à construção e com a crise e o desemprego, há muitos que ficam na casa, ao igual que os que estão já reformados. Portanto, nos últimos anos aumenta a presença masculina no lar. Isto obriga a uma negociação entre mulheres e homens, sobretudo com os que estão reformados. Eles são os homens das Batuko Tabanka, mulheres que tinham trabalhado muito mais o empoderamento.
Com as mais jovens, chegadas na última década, as relações de género estão mais diversificadas, sendo que na atualidade só 60% das famílias conserva a tipologia matrifocal com homem ausente, estando muitas delas sobre-exploradas na casa e no trabalho.
E embora haja duas associações atuais a situação não é nada boa. No ano 1987 nasceu a associação Tabanka, desativada quando a encontrei mas que depois se reativou e esteve encabeçada por mulheres com as que trabalhou muito BogAvante. O problema foi que sofreu o bálsamo que o concelho lhes passou por cima… e isto fez com que houvesse um desencontro entre as mulheres mais novas (1998-2008) e as mais velhas (1978-1998) e é por isso que nasce outra associação, Rabentola. Assim, Tabanka perde o cariz comunitário e cria-se uma outra associação, ficando um panorama parcial com dois grupos de batuko. Portanto, hoje estão a perder autonomia na comunidade e essa é, em linhas gerais, a minha conclusão da tese. Divide e vencerás.P1100410Género e língua, língua e género… Do teu ponto de vista, qual foi a relação entre a comunidade cabo-verdiana e o galego?
A língua de uso normal pela comunidade cabo-verdiana é o crioulo. Em Cabo Verde todas as pessoas o falam e apenas a elite é quem utiliza o português. Na escola estudam português mas fora desta todo o mundo fala crioulo. Levam anos tentando introduzir o crioulo no ensino mas até o momento sem sucesso nenhum.
Lembro que quando fui a Burela pensava que podia ser fácil porque achava que teria semelhanças com o português, mas não foi assim. Tive de aprender, primeiro ouvindo e depois estudando, quando consegui uma gramática para o estudar. Hoje falo crioulo muito bem, mas foi difícil. Para mim foi sempre a mais importante ferramenta de integração no mundo cabo-verdiano, já que é o maior marcador identitário da sua ampla comunidade transnacional.
Em relação à língua e às mulheres… elas são as que mantêm a língua e a transmitem @s filh@s. Na Galiza, algumas delas adotam o castelhano como língua de prestígio e muitas vezes mesclam o galego e o castelhano. A gente mais nova sabe falar português, porque teve acesso ao ensino, mas @s mais velh@s apenas falam crioulo. O português compreendem-no melhor do que o falam.
É por esta razão diglóssica da língua em Cabo Verde que el@s compreendem perfeitamente a situação do galego na Galiza, porque há muitas semelhanças em relação a usos.
As mulheres, como transmissoras da língua, mantêm-na sobretudo na música, que sempre está em crioulo. Nos últimos tempos @s jovens começaram a escrever crioulo graças às redes sociais, como o Facebook, já que escrevem em crioulo com as suas famílias e entre elas… Não há uma norma escrita a seguir mas el@s comunicam-se (o crioulo também tem um problema de normativização).
Depois… há algum exemplo, como Antonina, que fala muito bem o galego, mas isto é porque morou muitos anos em Cangas apenas rodeada de galeg@s, e quase sem relação com @s outr@s cabo-verdian@s e intregrou-se porque não tinha alternativa. Onde houve grupo, el@s acabam juntando-se, claro.
Também está o tema do racismo… eu mesma o vivi. Tenho uma filha mestiça e isso também o vejo e está ali, aqui e em todo o lado. El@s própri@s muitas vezes evitam relações com @s branc@s por evitar situações incomodas.

Fora deste projeto… como está a ser a tua experiência como professora na UTAD?
As alunas estão contentes, trabalho muito da perspetiva de género, trabalho o feminismo… e elas gostam imenso. Não conhecem a história das mulheres portuguesas (surpreendem-se muito, pensam que o feminismo é o contrário do machismo) e estive a procurar muita informação sobre isto. E há uma ignorância geral que convém ao poder…

E já por último… quando sairá publicado o teu trabalho? E quais são agora as novas perspetivas de futuro, os objetivos que tens a meio prazo?
Penso que sairá publicado antes do verão. Publica-se a metade da tese, mais ou menos. A parte de Cabo Verde é mais esquemática e incide-se mais na parte galega. Podeis ver a minha tese aqui.
A tese vai dar pé a integrar-me dentro de outros projetos de investigação universitários… por exemplo, agora estou num com o ESOMI (Equipo de Sociologia das Migrações Internacionais) da Universidade da Corunha.
De momento, acabo de ir a um congresso em Cabo Verde sobre género e migrações e depois terei de voltar a uma conferência em maio sobre os mesmos temas…. Vou continuar ligada à pesquisa, claro! Pode ser que apareçam outros objetos de estudo mas este faz parte também da minha vida pessoal e não vou poder deixar.

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