Fotografia

Mariola Mourelo

Sou Mariola, nascida na Corunha mas a minha família é das montanhas de Lugo, do Vale de Lôuçara em Samos, facto que me tem influído no jeito em que faço frente à vida. Gosto de viajar, conhecer outras culturas e jeitos de viver, e levo os últimos anos a morar no Concelho de Oleiros perto da Corunha. Estou envolvida em diferentes projetos, principalmente sociais, sendo parte da cooperativa de consumo Zocaminhoca, da plataforma cidadã Projeto Cárcere, e do movimento feminista da Corunha e da Galiza. A nível laboral estou com o projeto Ffotoeduca e formando-me na gestão e facilitação de grupos.

Qual foi o ponto de inflexão a partir do qual decidiste participar de maneira ativa no feminismo?

retrato 2Quando regressei à Galiza, depois de anos a morar no Reino Unido, tinha bastante tempo para participar de maneira mais ativa nos movimentos sociais. Comecei a envolver-me no trabalho da Marcha Mundial das Mulheres que naquela altura estavam a organizar um encontro internacional em Vigo. Certo que já tinha uma sensibilidade feminista, mas dum jeito mais pessoal e individualista. Foi com a Marcha que tornei coletiva essa necessidade de tomada de consciência do meu papel como mulher na sociedade e de ação e denúncia da discriminação que sofremos as mulheres. Depois foquei a minha atenção mais no local e no movimento feminista autónomo.

Conta-nos um pouco sobre a tua experiência no projeto coletivo das Mulheres e Fotografia da Corunha. Como surgiu este projeto?

Flora, Pilar y Lucía. No projeto "Muller(es)muller. Avoas, nais, netas"

Flora, Pilar y Lucía. No projeto “Muller(es)muller. Avoas, nais, netas”

Um grupo de amigas compartilhávamos o interesse pela fotografia e pelo feminismo, embora fosse a diferentes níveis. Eu tinha estudado fotografia em Gales e daí decidimos reunir-nos para aprendermos técnicas fotográficas, falar sobre a fotografia, as fotógrafas, sair a fazer fotografias juntas… foi uma boa experiência que concluiu numa expo coletiva no bar O Mentireiro sobre o bairro das Atochas. Depois deixamos de nos juntar. Algumas foram embora da cidade, outras começamos outros projetos, e já não funcionamos como grupo. No entanto, o perfil de facebook que leva uma companheira que está agora a morar em Barcelona, está muito ativo e está a ter um grande sucesso.

Mais um trabalho em que participaste foi o Projeto Cárcere. Em que consistiu? Quais foram os objetivos e quais os resultados?

Projeto Cárcere é uma iniciativa cidadã que quer transformar o antigo cárcere da Torre em Centro Sociocultural e da Memória. Desde finais do ano 2010 estivemos a compilar informação sobre o cárcere e propostas de uso para o edifício. Elaboramos um Plano de Viabilidade no qual apresentamos a filosofia do projeto, as propostas sustentáveis de recuperação do imóvel em concordância com um progressivo uso do mesmo e onde a participação cidadã e os interesses reais da cidadania devem ser os pilares para a tomada de decisão do que fazer com  a prisão. Já tínhamos feito umas jornadas de portas abertas antes de o PP ter entrado no Concelho. Foi uma experiência muito reveladora da capacidade que tem esta cidade de gerar atividade e dinamização social, dando-se-lhe apenas a oportunidade. No entanto, as comunicações com o Concelho foram minguando. Elxs não têm qualquer interesse num projeto onde a cidadania tenha o poder, e onde as elites da cidade não se beneficiem diretamente, e acho que também não sabem o que fazer connosco e com o cárcere. Se não fosse porque estamos sempre a colocar o tema do cárcere nos média e no debate político, já se teriam esquecido completamente dele. Neste momento, depois de 4 anos de trabalho, temos muito presentes as próximas eleições municipais, acho que vão determinar que caminho vamos tomar. Nós, por enquanto continuamos com o programa na rádio comunitária Cuac FM “Ondas do Cárcere”, construindo redes com outras experiências similares e achegando a nossa teoria à prática social. É complicado, mas com certeza uma experiência muito enriquecedora.

proxetocarcereEm relação à língua, Mariola é reintegracionista e sócia da AGAL… Porque e de que maneira chegaste ao galego internacional?

O meu irmão foi a minha maior influência. E realmente eu nunca me vi identificada com a norma isolacionista. Não representava de nenhuma maneira a fala da minha família  e também não satisfazia as necessidades mais simples do dia-a-dia. Se querias um computador com o software em galego tinhas que entrar num processo longo de reivindicar que se fizessem também programas na nossa língua, e o certo é que o mundo da tecnologia estava e está a desenvolver-se com tal velocidade que quando finalmente se disponibilizavam em galego, já estavas com outra cousa. O que eu não queria era ter de esperar utilizando as ferramentas em espanhol, e a opção de ir a Portugal e comprar um computador ou descarregar o software mais recente diretamente em português, era uma libertação, uma coisa menos em que ocupar o tempo, as energias e especialmente uma coisa menos com que se enervar.

Depois comecei a estudar português na Escola Oficial de Idiomas e a facilidade e rapidez com que podia aprender uma língua oficial e legalmente reconhecida em todo o mundo, foi definitivo. Simplificar a minha vida era muito atraente numa situação em que não só falar, escrever, escutar galego era, e é, uma odisseia vital, mas também poder estar exposta a uma diversidade de comunicações, perspetivas, e mesmo banalidades numa língua com a qual te sentes identificada, era um luxo que achei estúpido não aproveitar.

Faço parte da AGAL porque concordo em linhas gerais com a sua visão internacionalista e de simplificação do quotidiano através duma pedagogia integradora dirigida não só às pessoas reintegracionistas mas também a pessoas nunca expostas à opção lusista.  Certo que na AGAL coabitam ideologias diferentes e que há aspetos com os quais não concordo, como por exemplo a utilização acrítica do recente mundial de futebol do Brasil, e chama a atenção as poucas mulheres a ser parte visível das áreas de direção e de tomada de decisões da organização. Teria que aprofundar mais na situação real mas é interessante que vós estejais agora a constituir um grupo de mulheres dentro da AGAL, e gostava também de conhecer mais das vossas necessidades e objetivos. Desde já parabéns a todas.

Língua e audiovisual é o que compartilhas no teu documentário Mulheres e lingua, em que, de uma perspetiva de género, se apresenta uma análise da realidade sócio-linguística da Agra do Orzám (A Corunha). Como foi o processo de elaboração do documentário? Quais foram os resultados deste trabalho? Quais achas que são as relações entre língua e género?

Começou a partir duma conversa entre a Ade e mais eu, que somos ativistas feministas e as duas falamos sempre em galego. Foi num bar da Corunha, O Patachim, que colocamos a questão de como afetava a uma mulher falar em galego numa cidade como a Corunha, e também no resto da Galiza, e se era diferente com respeito à experiência de um homem. É surpreendente que este debate não apareça com mais frequência. Separamos de forma inconsciente a questão da língua da questão do género. Eu comentava como percebera as diferenças com o meu irmão quando comecei a falar em galego. De ti esperasse que sejas uma rapariga “à fina” e falar em galego não entra nesse quadro. Para um homem é mais fácil encontrar espaços mais afins, até num bar, onde falar galego pode ser mesmo uma mais-valia. Falar galego para um homem confere-lhe o valor de mais do povo, mais “bruto”, como algo positivo, de integração social, e também, como falou uma das entrevistadas no docu, dentro do âmbito da cultura, é também valorado positivamente. É frequente que se questione as razões de uma mulher para falar em galego, assume-se que é uma mulher do rural ou da costa, como algo negativo, ou que são questões externas, influência de algum moço nacionalista, por exemplo; como se não tivéssemos nós capacidade de pensar e tomar decisões sozinhas. Como se nos vê às mulheres na sociedade afeta em como se nos vê também no âmbito da língua. Falar galego para nós não implica uma subida de status, bem pelo contrário. E dentro do movimento de defesa da língua continuamos a sofrer descriminação, e mesmo a ser acusadas de que são as mulheres quem transmitem o espanhol às suas crianças. A eterna culpabilização e desacreditação das ações das mulheres, sem fazer qualquer aprofundamento no sistema heteropatriarcal em que nos movemos todas e todos, mas de jeitos muito diferentes. Acho que no documentário saíram vozes muito interessantes a ter em conta, e para continuar com o debate. A questão da língua não é ir um dia a uma manifestação, mas ter estratégias para  viver com plenitude a nossa língua na vida diária. Para fazer isso é imprescindível tomar a transversalidade do feminismo como ferramenta base, para entender como funcionamos, e criar alternativas úteis. Senão, resulta na perpetuação das descriminações e desigualdades, apenas as mudamos de língua. Uma perspetiva muito interessante é colocada pela Helena Miguelez-Carba no seu livro “Galiza, um povo sentimental?”. Observemos como estes debates vão sendo acolhidos nos espaços de defesa da língua, dar-nos-ão muitas chaves de como colocarmo-nos como mulheres feministas em galego daqui para o futuro.

Todo o teu trabalho tem sempre uma implicação de género. Ser mulher tem sido um traço diferencial no teu campo? Para bem ou para mal?

Ser mulher tem-me colocado num lugar determinado em relação a mim, a outras mulheres e com os homens. Como eu sinto o meu corpo, por exemplo, como alheio a mim mesma e do que outros têm mais controlo do que eu. Este sentimento de não-controlo da própria vida e de tomar decisões sem estarmos condicionadas por sentimentos de culpa, vergonha, inadequação… de termos de confrontarmo-nos uma e outra vez com barreiras mais ou menos óbvias, termos de dar explicações e justificar-nos em frente dos machistas “maus” e ainda mais enervante, se for possível, dos machistas “bons”, tendo mesmo que aguentar ser chamadas de vitimista quando és tu a que faz do seu dia-a-dia uma luta de sobrevivência constante… com certeza tem marcado todos os âmbitos da minha vida.  As mulheres temos muito caminho por andar e devemos fazê-lo a partir da nossa própria condição de oprimidas, o que não quer dizer que sejamos vitimistas, mas que o nosso caminho de saída dessa opressão vai ter de passar diretamente pela transformação de nós próprias e de toda a sociedade. Para os homens para serem considerados como feministas, e portanto como revolucionários e companheiros de luta, já não vai ser suficiente com simplesmente não fazer nada. Eles vão ter de se reconstruir desde o seu lugar de opressores, assumir que têm privilégios com relação às mulheres. Vão ter de aprender a viver sem os privilégios de nascimento, sem o calor da “camaradagem” masculina. Eles vão ter de utilizar a sua voz, espaço e poder para dar voz, espaço e poder às mulheres. Não vai ser simples, mas sim imprescindível.

Participas em mais projetos individuais e/ou coletivos?

Sim, levo já por volta de quatro anos com o Ffotoeduca, um projeto de educação e transformação social através da fotografia e o feminismo. E agora andamos também a argalhar uma revista feminista, “Revirada”, que espero veja a luz nos próximos meses e uma nova curta-documentária. Projetos nunca faltam.

E agora, quais são as perspetivas de futuro, os objetivos a médio/curto prazo?

Acho que este ano vai ser muito importante. Muitos dos projetos em que ando envolvida nos últimos anos estão num momento crucial. Pode acontecer muita coisa e eu estou pronta e com vontade para as enfrentar. Alguns continuarão, outros consolidar-se-ão e outros finalizarão, é parte do contínuo processo criativo. No eido feminista que para mim é o mais importante, pois atravessa todos os âmbitos da minha vida pessoal, laboral e ativista, continuar a revisar as estratégias e espaços feministas. Penso que se têm feito muitas mudanças nos últimos anos, mas agora é momento de ver que foi o que resultou bem e quais coisas não, e fechar uns processos para podermos abrir outros. Somos várias as que começamos a considerar que o feminismo precisa de estar ligado às necessidades vitais das mulheres e deixar de ser uma atividade paralela e secundária no nosso dia-a-dia. Há pouco falava-se num encontro de feministas autónomas que tínhamos de “sair do armário”, que o feminismo não podia ser sofrimento e sacrifício, tinha de ser uma ferramenta, uma opção de vida que desse resposta às nossas necessidades, que nos ajudasse a ser mais felizes. Como se pode fazer isto? Não tenho a certeza, será questão de arriscar, experimentar, tomar referências do passado, imaginar futuros possíveis, não deixar de sonhar, aprender a nos cuidarmos e não assumir que por sermos feministas estamos vacinadas contra o patriarcado. Está dentro de nós, mas também dentro de nós está o próprio antídoto. Como disse a Raquel de Vigo há pouco, uma das companheiras, não precisamos de ir longe procurar as ferramentas, porque as ferramentas somos nós.

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