Por que estamos fartas da quota feminina?

Raquel Miragaia

Sem entrarmos agora no debate da necessidade ou não duma política de quotas (em qualquer âmbito em que elas se apliquem), o que sim podemos afirmar pola experiência em diferentes activismos é que a política de quotas nos incomoda. Muitas de nós temos dito alguma vez, com um sorriso de meio lado, “sou a quota feminina”. Pode ser a quota detrás de uma faixa de uma passeata, em uma coletânea de artigos, uma palestra coletiva, uma lista eleitoral…
E incomoda-nos porque essa quota tende a esconder o problema estrutural que tratamos de esconder com este pequeno retalho. Sim, podemos considerar um avanço que em qualquer coletivo se tome a luta feminista como uma bandeira. Polo menos isso é sintoma de que o feminismo “vende”, polo menos em certos sectores da esquerda e cada vez num abano ideologicamente maior. Mas às vezes este interesse acaba por parecer superficial e, em ocasiões, sentimos como o nosso estatuto público mudou desde o “adorno físico” ao “adorno intelectual”. Agora já não aparecemos por fermosas, o que seria muito mal visto, aparecemos para mostrar como também as mulheres somos intelectuais. E nesse “também” radica todo o problema.
Vamos colocar algumas comparativas possíveis. A mais óbvia, a da língua. Será que com o feminismo acontece como com a língua galega nos usos ritualizados da classe política? Vemos muitas intelectuais, políticas em ativo, empresárias mesmo, fazendo esforço -às vezes sobrehumano, às vezes falhido- para mostrar como elas apreciam a língua galega tanto que até a usam. Até a defendem e, às vezes, usam o nome de Castelao ou Rosalia em vão; e sem sequer cometer pecado por isso.
Igualmente, essas mesmas pessoas, usam o feminino/masculino nas suas conversas e até acreditam na igualdade. Mas na igualdade da mulher com o homem. Essa igualdade em que as mulheres “também” somos iguais. Têm as suas quotas e as suas línguas corretas. Mas é a igualdade da mulher com o homem.
É dizer, o homem existe como ser social e a mulher é igual a ele. Tem as mesmas capacidades, o mesmo valor, os mesmos direitos e, portanto, podem ocupar o seu espaço; o deles.
E aí aparece a questão que nos incomoda. Porque não se trata de ocupar espaço que não é nosso, mas de fazer que todos os espaços sejam para todas as pessoas por igual. Porque às vezes não queremos os seus espaços, porque o conceito anti-patriarcal do mundo também significa acabar com alguns espaços significadamente machistas (touradas e exército podiam ser dois dos mais evidentes, mas há outros, mais subtis e igual de perversos).
Então voltamos ao começo. Não queremos ser a quota feminina nos seus espaços, nos seus âmbitos. O realmente libertador, o realmente emancipador, é que os espaços todos tenham a mesma importância e o mesmo estatuto. Que o espaço doméstico seja ocupado por todos por igual e que as mulheres participem nos âmbitos de decisão de forma cómoda não porque existe uma quota que assim o obriga mas porque a maneira de se relacionar e de se, sim, comunicar, integra todas as possibilidades, todas as variedades.
Por que por muito que desgostemos de o ouvir ou sentir, só pelo facto de ser mais grande, mais forte, ter a voz mais grave e maior volume, é mais fácil que sejas ouvido. Ao igual que se és branca, nascida no Norte do mundo e rica, terás mais liberdade para decidir sobre o teu próprio corpo -mais liberdade, que ainda não toda!-.
Porque queiramos ou não, para  a nossa desgraça vivemos num mundo onde o género te coloca -estejas de acordo ou desacordo- numa posição social. Desfavorecida no caso da mulher. Ao igual que ser preta, ou ser lesbiana, ou ser pobre… todas, opções que não escolhes. E, enquanto não sejamos conscientes, plenamente conscientes dos nossos privilégios de classe (de género), nada haverá que fazer na luta pela emancipação.
Seguiremos sendo a quota, o projeto das mulheres, a anedota que cobre a necessidade politicamente correta do partido, da associação, da empresa.
A verdadeira revolução emancipadora vai ser a que consiga levar o conceito de género à estrutura do pensamento e, portanto, à estrutura organizativa. Será possível a emancipação quando o género seja uma transversal que, valha a redundância, o atravesse tudo, e cada vez que se planifique um projeto, um programa, uma campanha… a perspetiva de género esteja da própria planificação. Seja quem for, homens ou mulheres, quem estejam dirigindo, pensando e agindo.

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