Susana Arins

Mulheres que nos trazem o mundo

Duas mulheres vinheram no mês passado. Duas escritoras que traziam todo um [seu] mundo para nos contar. E eu gozei da fortuna de partilhar com elas uma tarde das nossas vidas. Das suas. Da minha.
Thamizhachi e Ngahuia. Nomes alheios e anónimos há semanas. Hoje referenciais.
Alheios porque não fazem parte do nosso mundo. Não são europeias. Nem sequer são luso-afónicas ou hispânicas. Não nos coneta a língua imperial que um dia foi. Támil uma, maori outra, ocupam o lugar da estranheza, do exótico, da antípode. O não-lugar.
E por enquanto…
Partilhamos sobretudo risos. Cumplicidade humorística. Dois jantares de manjares compensadamente carnívoros e compensadamente vegetarianos.

O esterco

Thamizhachi trouxe para nós a bosta feita poesia. Partilhou com nós as suas ideias e preocupações poéticas, sociais, políticas. E nós, partilhamos com ela as nossas. As mesmas.
Chegou-me um documento com os seus biodados e uma escolma poética traduzida por María Reimóndez. Thamizhachi é licenciada em filologia inglesa e escreve em tâmil. Um sorriso cúmplice abrolhou na minha face. Eu sou a mestra de espanhol que escreve em galego.
Comecei a ler e uma palavra saltou como cuspe aos meus olhos: bosta. A bosta que leva o meu carro colada às rodas porque ainda restam vacas na minha aldeia. A bosta que nasce lume para as mulheres do rural tâmil. Um cheiro de conexão. Estrume a ligar-nos. E já ficaram os poemas de Tamizhachi en mim para sempre.

A língua

Combinamos para jantar em Santiago de Compostela. De caminho, um telefonema. Aguarda-nos em Padrão, que esta mulher quer visitar a Casa da Matança. Eló? Anda a ler coisas de Rosalia e está entusiasmada. Quer sabe-lo tudo antes de voltar a Tamil Nadu. Nova conexão.
Finalmente houve re-mudança de agenda e conhecemo-nos em Santiago. Foi um encontro a três. Ela, María Reimóndez e mais eu. Elas a falarem inglês e eu a esforçar-me por perceber qualquer cousa nos diálogos. Nós, eu e María, a falar em galego, e Thamizhachi a esforçar-se por perceber qualquer cousa nos diálogos. E em seguida chegaram os risos cúmplices.
O primeiro, sobre as atitudes linguísticas da gente. O facto de Tamizhachi ser támil pode não ser evidente, mas ser estrangeira é algo que saltava à vista. María exercia de intérprete, porém, em todos os espaços que partilhamos (as dependências da Junta de Galiza, a cafetaria onde nos encontramos, o restaurante onde jantamos, o estudo televisivo onde tinha uma entrevista) as interlocutoras passavam imediatamente ao espanhol para dirigir-se a ela. Viam que María lhe falava inglês, que entre nós falávamos galego, e mesmo assim passavam ao espanhol. Será que a gente pensa de verdade que esse é o idioma universal? Uma vez explicamos-lhe o porquê do nosso cachondeio era a própria Thamizhachi quem tentava adivinhar qual a língua das suas interlocutoras. E deu para que nos confessasse a pergunta ridícula que menos suportava das entrevistas que atendia, aqui, lá e acolá: por que escreves em tâmil podendo fazê-lo em inglês? Another connection in the milho. A anedota, que tanto diz dos galegueiros preconceitos linguísticos deu também para conversa sobre as diferenças entre sistemas educativos. Se aqui impuseram o inglês com o decreto do plurilinguismo, em Tamil Nadu o problema é de classe e de casta. A educação em tâmil é a pública, àquela a que acedem os grupos mais pobres pior tratados. A educação em inglês é privada e, portanto, marca de superioridade. O tópico que subverte Tamizhachi na sua escolha linguística é aquele do uso do tâmil PORQUE não se sabe inglês. Ela escolhe a língua da sua aldeia. Não nos lembra nada, este pormenor.

A marEsia

Partilhamos um ateliê poético em Vigo, levado por Apiario e em que participamos Dores Tembrás, Marta Dacosta, Patricia Meira e María Reimóndez, ademais de Thamizhachi, claro. A primeira proposta: um poema que nos apresente perante a estrangeira. E apareceu a maresia: a significação para Marta Dacosta, as diferenças de interpretação da palavra, a dificuldade da tradução e o apaixonamento tâmil. Thamizhachi prometeu que levava essa palavra consigo para as terras índicas. A sua reflexão sobre os nossos textos: o gosto pelas imagens fortes, potentes. Um bom poema é aquele que acolhe uma imagem que a leitora poda reter na memória, como a maresia.
Segunda proposta: aquilo que nos incomoda, nos disturba, no sentido inglês: Pediu-nos que escrevêssemos um texto utilizando como motivo qualquer cousa exterior a nós que nos causasse incomodidade, que provocasse a escrita. E escrevemos. E falamos. Incomodidades todas diversas, reações semelhantes, conversa agradável. Ela aproveitou para afundar na sua mais funda incomodidade: o seu papel de testemunha do genocídio tâmil em Sri Lanka. E explicou para nós a sua visão do conflito, porque para isso é poeta: para dar a conhecer as injustiças que sofrem as suas iguais. E se tem que cruzar meio mundo para cumprir o seu papel escolhido de altifalante, cruza.

O peto

E chegou Ngahuia. Chegou a nós através de Begonha Caamanho, que continua a marcar histórias, viva com nós. Pedimos-lhe a Nagahuia permissão para traduzir um seu conto. Queríamos inclui-lo no livro-homenagem que desde A Sega estamos a preparar para Begonha. Porque ela, lá nas antípodes, como Begonha, também faz reviravoltas literárias com a mitologia e a tradição.
E nas idas e voltas de correio eletrónico a proposta: vou à Europa, podo reservar uns dias e passar pela Galiza. E conhecer-vos-nos. As segadoras botamos contas, pusemos cada qual o que pôde e trouxemo-la três dias à Galiza. Porque sim. Porque nos petou. Porque não há como querer e ter companheiras cúmplices para poder. E nós, que sim temos entre os nossos objectivos que “a nossa foucinha nos ponha em conexão com o mundo, amossando também leituras de textos doutras línguas não hegemónicas graças a uma rede ampla de colaboradoras doutras latitudes”, aprendemos com Ngahuia que éramos quem, não só de trazer as leituras doutras latitudes, mas também as próprias escritoras. É só juntar-nos e ter força para fazer. Para construir.

Na escola

E chegou Ngahuia. E levamo-la à escola. Não à universidade, não. Não às academias, não. A uma escola de primária. A da nossa segadora mais nova. E organizamos um encontro com crianças de onze anos, que souberam, antes de todo, que só por serem galegas podiam pronunciar bem o maori e velar nome de Ngahuia. O galego é útil nas antípodes. Só por isso, valeu a pena o encontro. Mas na realidade Ngahuia falou, cantou, dançou e contou lendas e contos maoris.
Igual que fez para nós na sua palestra numa ateigada Lila de Lilith. E aí aprendemos mais: a força das lutais pela visibilidade lésbica antes de nós nascermos e na outra ponta do mundo. Oferecendo-nos uma lição enorme de dignidade às que muitas vezes acreditamos que estamos a inventar o mundo. Adoramos.
E ademais contou-nos contos maoris onde as moças deitavam com moças e iam à guerra e tatuavam as faces e os homens eram vencidos por mulheres afoutas. Revirando a tradição.

Imagens potentes.

A força que dá o trabalho em comum.
As comuns incomodidades.
As línguas vivas e rurais e velares.
A tradição revirada.
Mulheres em rede.

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