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Estamos tendo estes dias o estranho privilégio de ver como nasce uma revolta. A França já não é modelo de integração. Eu penso que não é difícil entender a causa destes surtos de violência, mas para isso é preciso renunciarmos ao eurocentrismo e à ideia de que tratamos só de violência irracional.
Continua:
A França é um estado como qualquer outro estado europeu, e também tem uma história de colonialismo e guerras. A Segunda Guerra Mundial teve uma importante consequência, a escassez de vivendas e a necessidade de construí-las. A possibilidade de obter mão-de-obra barata levou o governo francês a favorecer a entrada de pessoas procedentes das colónias, nomeadamente do norte de África. Esta gente ficou na França após a conclusão da reconstrução e foi sendo obrigada a concentrar-se em subúrbios.
O rápido aumento da população nestes subúrbios foi devido à dificuldade desta subclasse de imigrantes (e mesmo dos seus filhos e netos) para achar um emprego, mas também à falta de respeito de alguns municípios pela legalidade em matéria de vivendas sociais. Como curiosidade, o município de Neuilly-sur-Seine, que foi governado pelo actual ministro do Interior Nicolas Sarkozy, tem só 25 vivendas sociais por cada 1000, enquanto a lei exige que sejam 200. Foi este mesmo Sarkozy quem chamou racailles aos habitantes dos degradados subúrbios da capital.
A administração não acompanhou o aumento da população nestas áreas com melhores serviços, antes permitiu mediante a privatização que os subúrbios mais pobres fossem ficando sem serviços sociais, isto é, fora do estado do bem-estar.
É evidente que um sistema injusto não pode durar se é injusto contra muita gente, e o sistema económico dominante é injusto contra muita gente. As consequências (que poderiam manifestar-se de muitas outras formas) são as que vemos nas maiores cidades da França e que estão a começar na Bélgica e na Alemanha. O pior é que as vítimas da violência são os habitantes dos próprios bairros, os vizinhos e as famílias dos participantes na revolta. Eu não sou partidário de que se queimem escolas e centros sociais, ou os carros dos trabalhadores, mas entendo a raiva e a necessidade de lutar contra a violência orgânica do sistema. Agora só resta ver como se desenrola a acção e se esta violência é só destrutiva ou se colabora na construção de algo novo.
Nota: Recomendo a leitura do artigo Lucha de clases en el patio trasero del país de Robespierre, em rebelion.org. Ojalá eu não estivesse de acordo com a conclusão do artigo.