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Revolta(s)

07-11-2005

Revolta(s)

Estamos tendo estes dias o estranho privilégio de ver como nasce uma revolta. A França já não é modelo de integração. Eu penso que não é difícil entender a causa destes surtos de violência, mas para isso é preciso renunciarmos ao eurocentrismo e à ideia de que tratamos só de violência irracional.

A França é um estado como qualquer outro estado europeu, e também tem uma história de colonialismo e guerras. A Segunda Guerra Mundial teve uma importante consequência, a escassez de vivendas e a necessidade de construí-las. A possibilidade de obter mão-de-obra barata levou o governo francês a favorecer a entrada de pessoas procedentes das colónias, nomeadamente do norte de África. Esta gente ficou na França após a conclusão da reconstrução e foi sendo obrigada a concentrar-se em subúrbios.
O rápido aumento da população nestes subúrbios foi devido à dificuldade desta subclasse de imigrantes (e mesmo dos seus filhos e netos) para achar um emprego, mas também à falta de respeito de alguns municípios pela legalidade em matéria de vivendas sociais. Como curiosidade, o município de Neuilly-sur-Seine, que foi governado pelo actual ministro do Interior Nicolas Sarkozy, tem só 25 vivendas sociais por cada 1000, enquanto a lei exige que sejam 200. Foi este mesmo Sarkozy quem chamou racailles aos habitantes dos degradados subúrbios da capital.
A administração não acompanhou o aumento da população nestas áreas com melhores serviços, antes permitiu mediante a privatização que os subúrbios mais pobres fossem ficando sem serviços sociais, isto é, fora do estado do bem-estar.
É evidente que um sistema injusto não pode durar se é injusto contra muita gente, e o sistema económico dominante é injusto contra muita gente. As consequências (que poderiam manifestar-se de muitas outras formas) são as que vemos nas maiores cidades da França e que estão a começar na Bélgica e na Alemanha. O pior é que as vítimas da violência são os habitantes dos próprios bairros, os vizinhos e as famílias dos participantes na revolta. Eu não sou partidário de que se queimem escolas e centros sociais, ou os carros dos trabalhadores, mas entendo a raiva e a necessidade de lutar contra a violência orgânica do sistema. Agora só resta ver como se desenrola a acção e se esta violência é só destrutiva ou se colabora na construção de algo novo.
Nota: Recomendo a leitura do artigo Lucha de clases en el patio trasero del país de Robespierre, em rebelion.org. Ojalá eu não estivesse de acordo com a conclusão do artigo.

FOI ESCRITO @ 17:34:28 na categoria Ivan Link permanente

3 comentários

Comentário de: iago [Visitante]
iago

A França, com o tema do laicismo integrista já deixara de ser modelo de integração, penso eu, e valha a rebuznáncia (não como na Bélgica, onde esse tema se leva com maior tolerância, acho).

07-11-2005 @ 18:11
Comentário de: bestilheiro [Membro]  
Iván

Estou de acordo contigo, quero precisar que entendia o de “deixar de ser modelo de integração” como “deixar de ser apresentada como modelo de integração".
Eu sou defensor do laicismo, especialmente na escola, mas também de permitir aos cidadãos que utilizem os símbolos que quiserem sempre que não forem ofensivos para outros.
Sobre o tema de Bélgica não estou informado, mas acho que já houve revoltas em Bruxelas.
Engadim ao post uma ligação a um artigo que achei interessante.

07-11-2005 @ 20:51
Comentário de: xavi [Membro]  
xavi

Gostei muitíssimo do artigo. Eu também sempre pensei que onde é mais provável a revoluçom é na América Latina, igual que o autor. Enfim, fala de hoje, mas quem sabe o que trará o futuro… ;)

(eu também nom sou optimista, mas há que sê-lo)

12-11-2005 @ 14:22
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