LXXIII Aniversário do Fusilamento dos Mártires de Ordes

LXXIII Aniversário do Fusilamento dos Mártires de Ordes

07-02-2010

Este 8 de Fevereiro fam-se setenta e três anos desde que o fascismo assassinou no cemitério de Boisaca a onze vizinhos de Ordes: Ângelo Jesus Caamanho Vila Verde, José do Rio Pampim, Manuel do Rio Pampim, José García Fernández, José Igrejas Vilarinho, Manuel Moure Rei, André Nogareda, Paulino Peres Garcia, José Peres Sanmartim, José Vásques Mandaio e Bieito Vilarinho Liste. Todos militantes de esquerda, a maioria de Esquerda Republicana, mas também do Partido Socialista e o Partigo Galeguista. Reproduzimos a continuaçom um texto de Xerardo Díaz Fernández, companheiro dos ordenses na prisom de Santiago, que narra as suas últimas horas. Sirva esta pequena lembrança como homenagem à sua luita.

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Todo se ia desenrolando dum jeito endianhado. Havia verbas que para nós já perderam o senso; a piedade e a justiça eram duas delas; a lógica e a toleráncia, eram outras. Que ficava, pois, dentro de nós?: a xenreira, o rancor e o desespero. O que mais nos magoava era a injustiça e triunfo da maldade que, hora a hora, sentiamo-las sobre sobre nós como umha brêtema velenosa que nos afogava. E assim foi que...

Em outra madrugada de amargueza fôrom os de Ordes os que tivérom que pagar o trabuco e também se fôrom caminho de Boisaca. Boisaca, Boisaca, Boisaca... Como me lateja dentro do meu coraçom esta palavra que me fai recordar a cada intre todo o que ela significa... Boisaca, o leito cheio de friagem que acolheu os corpos ensanguentados dos amigos generosos... Boisaca, foste o único que nom lhes figeste mal porque quando lhes deste acougo já estavam mortos. Jamais esquecerei o teu nome.

Seriam uns doze os que iam para morrer, como os de Negreira... quem se lembra de tantos! Caminham junto, esposados e vam sós cada um com a sua soidade, que é a derradeira companha. A madrugada é estrelada e fria. Os soldados pisam forte e as suas pisadas é o único que creba o silêncio daquele amanhecer. Chegam à praça do Obradoiro; o autocarro que os vai levar está perto do paço de Rajói, fronte à Catedral. Entre os que vam ajustiçar acham-se dous mestres. Por que essa mania contra os mestres? Além de García, o narigom, vai outro jovem mestre; este decata-se que o ferro das esposas que apertam o seu pulso está um pouco frouxo e prova a ceivar-se dele forcejando amodinho, tam amodinho que o seu companheiro nom se dá conta; a mao vai escorregando pouco a pouco; no seu peito nasce umha esperança; segue a forcejar e por fim logra vê-la ceive; surgia umha ilusom, havia umha possibilidade entre mil, quiçá menos, mas havia que intentá-lo. Estavam os soportais do paço de Rajói que podiam protegê-lo na fugida; tinha que fazê-lo, nada se perdia se fracassava, mas podia salvar a vida. Deu um brinco de atleta e perdeu-se correndo entre os soportais do paço; a sua carreira era prodigiosa, umha maratona electrizante; jadeante brincou limpamente o pequeno muro que protege a praça quase que frente ao colégio de Sam Jerónimo; umha chuva de balas assobiam ao seu redor perseguindo-o com asanho; um suor frio molhava o seu corpo, mas ele segue correndo rua abaixo; ele nom sabe se tem frio ou nom, ele nom sabe se está ferido ou nom, já nom tem medo, já nom pensa na morte, só pensa em correr, em correr mais ligeiro pois a rua cada vez aparecia-se-lhe mais longa, tinha que correr ligeiro cara a liberdade para encontrar a salvaçom que quiçá já está perto; mas a morte aguardava-o ali. O soldado que estava de sentinela ali abaixo, detrás da cadeia, surge ao cabo da rua, finca um joelho no chao e aponta com cuidado o seu fusil; nom tem presa por disparar, deve ser um veterano, quiçá um amigo ou vizinho, aguarda como fai o toureiro numha corrida de festa; a vítima, cega, achega-se velozmente; o soldado nom tem presa, pois quer assegurar o tiro; o pobre homem já está a quatro passos, afina a ponteria e, a boca de jarro, com toda impunidade, friamente, dispara o tiro mortal. O corpo ensanguentado e latejante cai sem vida aos pés do soldado que o arreda de si com um gesto de nojo. Todo rematara. Vinhérom correndo os soldados da escolta e levárom o cadáver e deitárom-no no piso do autocarro, aos pés dos seus companheiros, que tivérom que pisá-lo pois nom tinham lugar onde passar. Quando os fusilárom, o corpo sem vida pugérom-no às plantas dos que iam morrer. Havia que cumprir a sentença e satisfazer a justiça. Também lhe dariam a ele o tiro de graça?

Foi passando o tempos e os fusilamentos rematárom. Estavam cansados, tinham remordimentos ou estavam a descansar para começar de novo?

Depois de dous anos naquela cadeia, tínhamos que deixá-la. Partíamos, nom para a liberdade, senom para outra cadeia, cara o desconhecido. Eu nunca pensei sentir tristura por abandonar umha cadeia, mas assim era; deixávamos todo aquilo que nos fijo chorar e rir e sentíamos a amargura do afastamento de tantos companheiros e amigos que connosco convivérom horas de trascendental angúria, à maioria, já nom os voltaria a ver jamais. Levam-nos para a cadeia da Corunha. Que nos aguardava ali? Nom éramos donos dos nossos destinos, só éramos donos dos nossos pensamentos, que era o único que nom nos podiam quitar. Sairíamos antes da alborada. Essa noite figemos umha festa de despedida com os companheiros de cela à qual também assistiu Maça, com licença da Direcçom. Foi umha ceia bastante tristeira; falamos dos nossos companheiros mortos e fazíamos conjeturas polo que o destino nos ia a deparar dali para diante. Arranjamos as nossas cousas e quando nos decatamos já se acercava a hora de partir. Dérom-nos aviso e despedimos-nos dos que ficavam. Agostinho emocionou-se avondo ainda que o quijo disimular, dixo-nos quando nos abraçava: ?Adeus, amigos; adeus para sempre.? Foi-se a sentar apoiando a cabeça nas maos, assim ficou até que nos fomos.

Maça nom nos dixo nada; abraçou-nos um por um e as bágoas escorregavam abondosas pola sua faciana. Separou-se de nós dando média volta e foi-se para um curruncho enjoitando as bágoas com um pano.

Sam Tisso Girom com o seu sorriso sempiterno apertou-nos; brilhava a sua tersa fronte cor cobre brunhido; através dos óculos chispeavam os seus olhos delatando a turbaçom que o atingia:

?Até sempre, companheiros! Eu aguardo que com o trunfo ou com a derrota havemos-nos de atopar. Adeus!

Alende, mui sério, também se despediu à sua maneira:

?Abur, muchachos!... Alende deseja-vos muita sorte. Abur!

Saímos e ao passar polas outras celas dixemos-lhes adeus aos companheiros que ficavam nelas. A tristura estava nos seus olhos. Esposárom-nos de dous em dous e partimos mui bem escoltados.

Corriam os veículos que nos levavam atravessando as ruas silandeiras. A noite era sereia e brilhavam as estrelas parpadejando antes do que o dia apagasse os seus reflexos. Ao abandonar a cidade sentim umha melancolia desconhecida até entom, produzida polo recordo dos amigos e companheiros que ficavam para sempre no cemitério de Boisaca, enterrados na fossa comum.

Ia-se achegando o dia. Chegamos a um alto da estrada perto de Ordes, a metade entre Santiago e a Corunha pouco mais ou menos, e detivérom-se os autocarros; figérom-nos baixar dos carros para estirar as pernas. A mim doia-me o pulso apertado com o ferro das esposas, mas eu nom dixem nada por medo a que se me queixava nom mas foram a apertar ainda mais. As primeiras raiolas do dia começavam a ver-se no horizonte numha alborada morna, e a minha imaginaçom flutuava entre o real e a fantasia. Despertava o campo e umha lene brisa estival agarimava o meu rosto; leviáns colunas de fume erguiam-se das casas situadas nos vales que havia a umha beira e outra da estrada; o sino dumha igreja deixou ouvir o seu ledo latejo; o silêncio da campia só era rompido polo renjer dos velhos carros de madeira e polos berros dos labregos encirrando o gado que turrava dos mesmos. Todo era acougo e formoso nesse despontar do dia. Um paisano que caminhava diante do carro com a guilhada na mao, carregado de esquilme, detivo-se a umha ordem dada polo guarda civil. O homem ficou quedo, estático com o seu pantalom de pana, a camisa a quadros e a pucha lustrosa; na boca tinha um anaco de pitilho apagado e a sua silhueta recortava-se contra a claridade do horizonte como um desenho de Castelao. Nom sei porquê acudírom à minha memória estas verbas de Napoleom: ?Os povos deixariam de queixar-se se deixaram de sofrer?. Rubimos aos carros.

A guerra seguia a matar gente, e eu seguia a caminhar por umha trevosa corredoira cara o desconhecido. Começava outra etapa da minha vida.

Montevideu, Novembro de 1980


DÍAZ FERNÁNDEZ, Xerardo. 1982. Os que non morreron. Ediciós do Castro: Sada. 161-164

Escrito ?s 21:04:24 nas castegorias: ACTIVIDADES
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