A comarca de Ordes na literatura (III)

A comarca de Ordes na literatura (III)

07-06-2010

MANUEL MURGUIA AO SEU PASSO POR ORDES

Nom sei se existe ainda, mas há uns vinte anos, e sempre que atravessava o caminho de Santiago à Corunha, ao chegar a umha alta esplanada, triste e solitária, mas cheia de agrestes aromas e de umha certa selvagem poesia, grata ao filho das montanhas, costumava deter as olhadas e o pensamento sobre um velho e um tanto espacioso edifício que à direita da estrada recurtava a sua obscura silhueta, sobre um céu encapotado.

Sobre a porta lia-se entom um letreiro: MESOM DE DEUS.

Continua:

Aquelas negras paredes, mais negras ainda no meio de umha paisagem sem vivendas, sem árvores e sem raio de sol, faziam-me o mesmo efeito que os abandonados pombais que nos chaos de Castela parecem erguer-se para acusar ainda mais o vasto da chaura e a soidade que nela reina.

As janelas pechadas e sem vidros, a porta pechada também e muda, a chaminé a dizer a vozes que naquele fogar abandonado nom se encendia fogo havia anos, davam a entender bem claramente que as almas sós que ali houvera, voaram já aos lugares misteriosos onde todo acaba e se confunde.

Os que nascimos à beira do mar ou vales que o avizinham; os que vivem nas fecundas e riseiras comarcas que formam na Galiza regions verdadeiramente paradisíacas, nom acertam a compreender as belezas próprias das altas mesetas centrais do nosso país. Aquela, ao parecer, inóspita extensom, coberta da dura pranta que lhe dá a sua cor escura; a vasta amplitude apenas cortada no horizonte pola linha desigual dos pequenos outeiros, e os delgados álamos””” que marcam ao longe o cauce do rio, em cujas frias e cristalinas águas se reflictem todas as soidades que as rodeiam, tenhem, porém, a sua poesia e grandeza. Ao fundo obscurecem-se as tintas e tomam o eterno azul das lonjanias; o céu é mais claro, e as árvores mais verdes, as águas mais transparentes, o silêncio mais solene; numha palavra, todo tem a vaguidade e a grave firmeza das alturas. Verdadeiramente valem bem o amor que lhes professam os seus filhos!

Nestas chairas, no médio das quais pode repetirse com o poeta: “da sua prisom escapa o meu coraçom de águia quando vejo o seu horizonte imenso”, o homem torna-se reflexivo e ensonhador. Diria-se que nelas templa-se o ânimo e o ser endureze-se para todo gênero de fatigas. O cavalo errante pasta uma erva desmedrada; o carneiro de lá áspera, despunta os cítisos selvagens e as retamas em flor; os ventos som frios, mas a cançom da camponesa é mais pura, porque fala só dos afectos íntimos e resoa sob céus iluminados por doces e claras lonjanias.

A mai de Deus tinha o carácter dos lugares nos que nascera e passado os seus primeiros anos, era boa e forte. O seu filho herdou sobre todas, estas duas qualidades, exaltadas por umha vida aventureira e de privaçons. Pensava que o seu pam negro e a água cristalina das montanhas nom haviam de faltar-lhe, nem menos ainda o pedaço de terra em que durmir o seu sonho de soldado, enquanto nom lhe chegava a hora suprema de durmir o dos heróis desconhecidos. Que lhe importava o resto? E porém, se ele tivesse contado os seus sonhos, se assim como sentia o seu coraçom, o expressara a sua palavra, arpa muda, em cujas cordas ressoou mais de umha cançom, com que extranhos sotaques nos teria comovido!

Los precursores, “Leonardo Sánchez Deus”, cap. 3.

Escrito às 19:34:52 nas castegorias: ORDES NA LITERATURA
por foucelhas Email , 575 palavras, 586 visualizaçons   Português (GZ)   Chuza!

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