O medo em Davos

03-02-2008

  19:51:41, por Corral   , 623 palavras  
Categorias: Outros, Ensaio

O medo em Davos


Juan Francisco Martín Seco

Foi também em Davos, acho que em 1997, quando o então presidente do Bundesbank, Tietmeyer, esculpiu a frase que declarava o fim da política e a democracia: ?Os mercados serão os gendarmes dos governos?.

Decorrêrom dez anos e, seguindo este slogan, os governos forom renunciando pouco a pouco a intervir na economia e as relações trabalhistas forom-se liberando, de maneira que imperam a liberdade para os empresários e a extinçom dos direitos para os trabalhadores. A globalizaçom dos mercados financeiros, a livre circulaçom de capitais, a deslocalizaçom, introduzirom o dumping social e promotor com o que os sistemas tributários caminham para modelos baseados exclusivamente em impostos indirectos e trabucos sobre as nóminas.

Dez anos depois, e agora também em Davos, surgem vozes de alarme. Matarom ao pai, proscreverom a intervençom do poder político na economia, quiserom tirar-se o jugo da pressom popular e democrática, proclamarom a supremacia dos mercados, e começam a dar-se conta de que tão só engendrarom o caos. Os mais lúcidos som agora conscientes de que partirom de uma hipótese falsa, a de que os mercados se autorregulam e chegam por si sozinhos ao equilíbrio.

A multiplicaçom de agentes e de produtos sem nenhum controle gerou a anarquia. Fenómenos como os das hipotecas subprime descobrem como os mercados financeiros se encherom de lixo, lixo que as agências de avaliaçom qualificarom de mercadoria de primeira qualidade. Na actualidade, o factor que mais está amplificando a crise é a desconfiança com a que se olham as entidades financeiras. Ninguém se fia de ninguém. Todos som suspeitos e nom há quem garanta seu solvência. Nem os Basileas nem os bancos centrais... Hoje, curiosamente também em Davos, se suspira por um sheriff mundial que ponha ordem.

Muitos dos assistentes ao Foro Económico Mundial contemplam a situaçom com bastante intranquilidade. Falam de uma crise longa, inclusive do final de uma era, a era do dólar e do império americano. Até o momento, EEUU era o único país que podia se permitir o luxo de nom ter que se submeter às restrições que as leis económicas impõem a todos os demais. Desde 1971, ano no que denunciou a convertibilidade do dólar, EEUU está livre de toda norma, já que a universal aceitaçom desta divisa como moeda de reserva lhe permite alegrias que nom poderia ter nenhum outro Estado.

EEUU em suas diferentes épocas acumulou déficit, tanto públicos como de balança de pagamentos, desorbitados, e que de se ter tratado de outros países, principalmente emergentes, teriam suscitado as condenações mais enérgicas dos organismos internacionais. Tais déficit podiam financiar-se, até agora, sem demasiada dificuldade mediante a tenência de dólares no exterior e sempre que se mantivesse a confiança. Mas esta situaçom constitui um equilíbrio instável que qualquer factor pode desestabilizar.

Nestes últimos anos, a ineptitude e a paranóia de um presidente levarom ambos déficit a um nível dificilmente suportável. A loucura das guerras de Iraque e de Afeganistam, a protecçom da indústria armamentística e uma política fiscal regressiva, encaminhada a que as classes altas paguem menos impostos, originarom que os desequilíbrios se incrementem.

A situaçom de privilégio de EEUU pode estar a chegar a seu fim, às loucuras de Bush há que acrescentar que ao dólar lhe nasceu um competidor, o euro, e que acontecimentos como o das hipotecas subprime podem estar a minar a confiança no sistema americano.

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