QUE PASSOU DANTES de que se iniciasse a crise financeira

31-12-2009

  20:31:20, por Corral   , 803 palavras  
Categorias: Ensaio

QUE PASSOU DANTES de que se iniciasse a crise financeira

 
Vicenç Navarro / Rebelión

A resposta é que as relaçons de poder (e muito primordialmente, as relaçons de poder de classe) mudaram naquele período. O Pacto Social Capital-Trabalho que tinha existido após a II Guerra Mundial se rompeu, devido ao poder do mundo empresarial das grandes companhias que em EEUU se conhece como a Corporate Class (a classe empresarial das grandes companhias). O Pacto Social tinha possibilitado o elevado crescimento económico desde 1945 até *mediados dos anos setenta. No sector industrial, o Pacto dava lugar a convénios colectivos de cinco anos, inicialmente assinados polo Sindicato do Automóvel (United Autoworkers Union, UAW) e as três companhias de automóveis de EEUU, e que se convertiam no ponto de referência para o resto de convénios colectivos em tal sector. Neles, os salários estavam unidos à produtividade, de maneira que o crescimento da última determinava o crescimento correspondente dos salários. Durante aquele período, a riqueza criada polo aumento da produtividade distribuiu-se a todos os sectores, os beneficiando a todos eles. Desde 1949 a 1979, o incremento da renda da decila inferior foi de 116% e o da decila superior foi de 99%.
 
Esta situaçom mudou durante a Administraçom Carter, quando o Governador do Banco Central Estadunidense, o Sr. Paul Wolcker, criou umha recessom, aumentando os interesses bancários, a fim de criar um elevado desemprego e reduzir os salários. O argumento utilizado é que tinha que os reduzir a fim de controlar a inflaçom. Em realidade, significava umha mudança nas relaçons de poder de classe que deu origem a umhas políticas fiscais e económicas que claramente beneficiaram às rendas de capital e às rendas superiores. Foi o fim do Pacto Social, e isso determinou que a partir de entom os crescimentos da produtividade nom se traduzissem num crescimento paralelo dos salários. A riqueza criada polo aumento da *produtividade passou a beneficiar primordialmente às rendas do capital e às rendas superiores. Do período 1970 a 2005, o 5% da populaçom de renda superior incrementou sua renda um 81%, o 20% da populaçom de renda superior um 53%, enquanto as rendas médias e inferiores viram diminuir suas rendas (o 20% da populaçom com menor renda viu descer sua renda um 1%) ou viram-na crescer muito lentamente (o seguinte 20% acima do anterior 20% viu crescer suas rendas um 9%). E isso foi conseqüência de que os salários descessem ou se estancassem durante aquele período, tal como documentaram os relatórios The State of Working America do Economic Policy Institute. É este descendo o que determinou o grande endividamento das famílias, que originou o enorme crescimento da banca. A financializaçom da economia (isto é, a grande extensom do sector financeiro na economia) explica-se precisamente polo grande endividamento da populaçom, endividamento que era possível polo elevado preço da moradia, o maior aval de tal endividamento. A prática agressiva de promoçom do endividamento por parte da Banca chegou também ao fenómeno das hipotecas lixo que se supom que som a origem da crise financeira.
 
Por outra parte, a escassa demanda fai diminuir o crescimento económico, o que forçou ao Banco Central do governo federal a baixar os interesses, facilitando o aparecimento das sucessivas borbulhas, sendo a última a borbulha hipotecaria. De novo, a crise financeira originava-se pola escassa demanda, resultado do descendo das rendas do trabalho. Daí que, a nom ser que se resolva o enorme endividamento das famílias, recuperando as rendas do trabalho existentes dantes do racho do Pacto Social, nom resolver-se-á a crise. (Para umha ampliaçom deste tema, ler meu artigo ?Para entender a crise. Assim começou tudo em Estados Unidos. Daí deriva-se o facto de que, ainda quando se tenham evitado os colapsos da grande banca, a crise nom se está a resolver, pois o problema de fundo nom se está a resolver. A escassa capacidade de consumo por parte da populaçom traduz-se num problema de demanda de dimensons enormes e que nom se pode resolver sem se solucionar o enorme problema do endividamento privado. A única maneira imediata de resolver esta situaçom é aumentando a demanda pública a costa, em parte, de um elevado endividamento público. Daí a necessidade de manter um elevado deficit público. Reduzi-lo é atrasar ainda mais a recuperaçom económica e a criaçom de emprego. Tal como indiquei repetidamente, o estado devesse manter um deficit elevado, a fim de permitir um investimento sobretodo em emprego público, que permita nom só resolver o enorme problema de falta de criaçom de emprego senom também solucionar o atraso na recuperaçom económica.
 
Vemos que, por desgraça, a Uniom Europeia está ainda estancada no pensamento liberal, que toma o Pacto de Estabilidade como o seu dogma, Pacto que foi responsável de que a Uniom Europeia tenha crescido menos e tenha criado menos emprego que EE.UU. onde tal Pacto nem existe nem se espera.
 
 
Vicenç Navarro é catedrático de Políticas Públicas. Universidade Pompeu Fabra, e Professor de Public Policy. The John?s Hopkins University
 

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