« Nesta sexta-feira... festa de Entruido!Recuperamos banda desenhada do Colectivo Pestinho »

Ernesto Guerra da Cal (1911-1994): um ferrolano "Mestre da Galeguidade"

20-02-2007

Link permanente 18:13:04, por Fundaçom ARTÁBRIA Email , 1741 palavras, 670 visualizaçons   Português (GZ)
Categorias: Comissom de Língua, Documentos, Língua

Ernesto Guerra da Cal (1911-1994): um ferrolano "Mestre da Galeguidade"

Ernesto Guerra da Cal

Recuperamos para vós um texto imprescindível, editado em forma de tríptico pola Artábria em 1994, com motivo do falecimento do ferrolano e grande patriota Ernesto Guerra da Cal. Personalidade das nossas letras pouco conhecida para o "grande público", com a difusom desta modesta homenagem da nossa entidade queremos, quase 13 anos depois da sua morte, voltar a reivindicar a sua figura de luitador antifascista e intelectual reintegracionista.

Continua:

[Imagem: capa do número especial editado pola revista Agália em 1994 com motivo do falecimento de Guerra da Cal]

Vida

Ernesto Guerra da Cal nasceu em Ferrol em 19 de Dezembro de 1911, filho de um médico ferrolano, Romám Peres da Cal, e Laura Guerra Taboada.

Quando apenas contava um ano, morreu o pai, tendo que se mudar para Quiroga, onde passará a infáncia ao cuidado da sua avó e a sua tia. “Tetyo”, quem lhe inculcará um grande amor polas letras desde mui pequeno. No entanto, sua mae viaja a Madrid para acabar os estudos de Magistério. Mas tarde, residirá em Castroverde e Pol, onde sua mae exerce,j antes de obter vaga definitiva em Madrid, aonde levará com ela os seus dous filhos.

Guerra da Cal morará lá desde os 11 até os 25 anos, mas virá passar os veraos à Galiza, conhecendo muito bem Ferrol e outras vilas próximas.

Em Madrid tira o curso de Filosofia e Letras, onde estabelece amizade com professores dele como Américo Castro ou Tomás Navarro, e também com mbembros destacados do panorama cultural como J. R. Jiménez, Buñuel, Neruda ou Lorca, com quem fará teatro e colaborará na ediçom dos Seis Poemas Galegos.

Nos anos 28-29, foi preso em várias ocasions por particpar em actos estudantis contrários à ditadura de Primo de Rivera.

Entre os anos 30 e 36, fai parte activa do movimento galeguista, assistindo a actos culturais e políticos, como as tertúlias do “Café Regina”, onde eram habituais Vilar Ponte, Pedralho, Soares Picalho ou Castelao (deputados pola Galiza no Parlamento da nascente IIª República), e outros como Cabanilhas ou Branco Amor. No ano 32, acha-se presente na reuniom da GALEUZCA, onde conhece Cunqueiro, Arturo Cuadrado e um outro ilustre ferrolano: Carvalho Calero.

Em 36, com o início da Guerra Civil, alista-se voluntário nas Milícias Galegas. Depois será o encarregado polo Serviço de Informaçom Militar fora do Estado. Durante a Guerra, em 38, conhece Rafael Dieste em Barcelona, estreando-se como poeta na revista Nova Galiza, –“voceiro dos galegos antifeixistas”– que este dirigia.

O fim da guerra surpreende-o em Nova Iorque, para onde tinha sido enviado. Ali, começará a sua carreira docente, doutorando-se em Filologia Románica e logrando a Cátedera na Columbia University, com a primeira tese sobre literatura portuguesa numha universidade norte-americana.

A partir deste momento, e até os anos 90, começa umha fecunda e feroz actividade; som 50 vertiginosos anos em que Guerra da Cal ´da todo o seu génio. Vemos o melhor da sua obra, da qula cumpre pôr em destaque a sua investigaçom sobre a Língua e Estilo de Eça de Queiroz, a parte galega do Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira, elaborada a pedido do crítico português Jacinto do Prado Coelho, ou os seus livros de poemas Lua de Além-Mar e Rio de Sonho e Tempo, publicados por Galáxia em 1959 e 1963. Além disto, pronuncia conferências e seminários, e realiza trabalhos de investigaçom para as universiades e entidades mais prestigiosas do mundo, entre elas, a Fundação Calouste Gulbenkian, a US Information Service ou a Universidade Clássica de Lisboa., a Federal do Rio de Janeiro ou a Princeton e a New York University, dos EUA.

Sempre, por toda a parte, propagou e sustentou a causa da emancipaçom da Pátria Galega oprimida, e defendeu a dignificaçom da nossa língua –a variante mais antiga de expressom lusíada.

Este grande labor foi justamente reconhecido, ao ter sido objecto das mais altas distinçons institucionais e académicas nos EUA, Portugal e o Brasil.

Em 77, reforma-se da sua Cátedra na Universidade de Nova Iorque, e vai viver para o Estoril.

Em 84 e 87, vem à Galiza para participar nos I e II Congressos Internacionais da Língua Galego-Portuguesa, organizados pola Associaçom Galega da Língua, dos quais é nomeado Presidente de Honra. Também desempenhou este cargo na Comissão para a Integração da Língua da Galiza no Acordo da Ortografia Unificada. Em 89, muda-se para Londres, para retornar mais adiante a Portugal. Em 27 de Julho de 1994, morria na sua casa de Lisboa, aos 82 anos de idade. Morreu na sua Galiza ideal.

Pensamento

Guerra da Cal viveu longe da sua Pátria, mas nom perdeu em nengum momento o contacto com ela, sendo um grande conhecedor dos problemas do nosso país, e umha pessoa de fundas convicçons nacionalistas –as que o levam a renunciar à nacionalidade espanhola– vividas como plena (re)integraçom da Galiza no mundo lusófono.

Com o fim das ditaduras fascistas peninsulares (Salazar em Portugal e Franco no Estado espanhol), Guerra da Cal volta dos EUA, após a sua reforma, e instala-se em Portugal. As suas ideias levam-no a escolher Portugal e nom a Galiza, já que se nega a viver numha Pátria colonizada política, social, e lingüisticamente.

“A Galiza é um país semiconquistado e eu não posso conviver numa Galiza mediatizada pelo Estado Central. Estou aqui numa Galiza livre, onde falo a minha língua, estou rodeado de pessoas que falam a minha língua e só tenho que ouvir de quando em vez um turista falando castelhano. Mas se for à Galiza, tenho que estar a ouvir os galegos a preferirem, muitos deles, serem espanhóis de quarta classe do que galegos de primeira”.

A afirmaçom da unidade lingüística e cultural galego-portuguesa vem-nos já do período da Ilustraçom, de maos de Feijó ou Sarmento, e era doutrina oficial do movimento galeguista desde os primeiros tempos do Rexurdimento decimonónico, com Murguia ou Pondal, até a primeira metade do século XX, com Castelao ou Biqueira. Por isso, quanto ao problema do galego, Guerra da Cal mostrou-se sempre favorável à reintegraçom do nosso idioma no seu sistema lingüístico próprio, o luso-brasileiro, criticando aqueles que querem queo galego “seja, mesmo como língua escrita, um dialecto doespanhol, que significa uma condenação à morte”. Neste sentido, o nosso autor passa da teoria à prática já nos seus primeiros escritos, sendo pioneiro no uso da ortografia histórico-etimológica, como bem nos explica na sua “nota do Autor” ao poemário Lua de Além-Mar, em 1959.

“Empregamos a grafia portugesa para todos os fonemas galegos que por meio dela podem ser representados sem deturpar o carácter da nossa peculiaridade idiomática. Movem-nos a isso duas razões, a nosso ver validamente justificadoras: a primeira é a evidência de que o sistema gráfico vigente até hoje entre nós não tem base alguma respeitável, nem histórica, nem científica; a segunda, e ainda mais importante, é o considerarmos inadiável o restabelecimento dos vínculos tradicionais das nossas letras com o âmbito ampla e rico da cultura luso-brasileira, à qual tanto pelo verbo como pelo espírito pertencemos. Não fazemos nisto senão seguir o conselho venerável do patriarca Murguia, que já recomendou a unificação no perímetro e nas correntes universais do “mundo que o português criou” aquém e além-mar. O verdadeiro meridiano espiritual da Galiza passa por Lisboa e pelo Rio de Janeiro –e quanto antes reconheçamos esta verdade, antes se abrirão à nossa antiga voz recuperada as possibilidades de ecoar fora dos restritos confins comarcas em que nos estamos fechando, cegos às vastas perspectivas que temos diante dos olhos”.

O desconhecimento de figuras como Guerra da Cal e tantas outras na nossa pátria, deve-se, em grande parte, à política educativa e informativa vigente, desprezativa com a autêntica realidade social, cultural e histórica do País, quanto mais com posicionamentos como os do nosso autor, de teoria e prática reintegracionista e nacionalista, muito incómodos para a “nossa” oficialidade autonómica actual, o que explica o seu silenciamento –mantendo-o no desterro– e o nulo recdonhecimento na Galiza; entretanto, noutros países, nom só nos da nossa área lingüística, como o Brasil, Angola ou Portugal, mas nos EUA, Inglaterra ou a Suécia, é reconhecido polo seu grande valor como investigador, crítico e, sobretodo, poeta. Nom nos resistimos, para demonstrarmos isto último, (podemos afirmar ter um poeta galego e em galego, universal, que nom tem nada a invejar a outros poetas) a transcrever um fragmento do seu poema “Entressonho”, de significado evidente:

GALIZA
encadeada
na sua funesta rocha prometeica
co’as entranhas
de sempre
estraçalhadas
por ferozes abutres
em festim
GALIZA
avassalada
condenada
a ir sempre à deriva
dentro da sua alma
sempre
a escutar os ecos
dos últimos soluços
das viúvas da sombra
e o derradeiro grito
do náufrago afogado
...

Nós, como galegas e galegos, temos a obrigaçom moral de restituir Guerra da Cal no lugar que lhe corresponde dentro das nossas letras, um lugar que já ocupa nas “outras” nossas letras, mas que lhe falta entre nós.

Somos muitas as galegas e galegos que estamos certos de que as suas ideias lingüísticas acabarám por convencer e vencer. A única dúvida quiçá é a de se, quando esse momento chegar, nom será já demasiado tarde; isto é, se a castelhanizaçom e a substituiçom maciça da língua que a actual política de afastamento do galego das suas variantes luso-brasileiras, chegará a um extremo em que seja impossível detê-las.

Polo menos entom os que agora se empenham na aventura suicida de fazer da língua da Galiza umha língua independente reconhecerám quiçá que Guerra da Cal tinha razom –infelizmente.

Bibliografia

Poesia

- Lua de Além Mar (1930-1958)
- Poemas (1961)
- Rio de Sonho e Tempo (1959-1962)
- Motivos do Eu (1966)
- Futuro Imemorial (Manual de velhice para principiantes) (1985)
- Deus, Tempo, Morte, Amor e outras Bagatelas (1987)
- Seis Poemas de Rosalia de Castro (1988)
- Espelho cego (1990)
- Caracol ao Pôr-do-Sol

Investigaçom

- Língua e Estilo de Eça de Queiroz (1966)
- Dicionário das Literaturas Portuguesa, Galega e Brasileira (1956) (organizou a parte galega)

Ferrol, Galiza, 1994

Sem comentários ainda

Deixe o seu comentário


Seu endereço de e-mail nom será revelado nesse site.

Sua URL será exibida.
(Quebras de linha se tornam <br />)
(Nome, e-mail & website)
(Permitir que usuários o contatem através de um formulário eletrônico (seu e-mail nom será exibido.))
Horário de Abertura
- Segundas a quintas 17.00h-23.00h
- Sextas e Sábados 18.00h-02.00h

A Associaçom Reintegracionista Artábria, nascida em 1992 em Narom, transformou-se em abril de 1998 em Fundaçom, inaugurando em setembro desse mesmo ano o seu Centro Social.

A Fundaçom Artábria está declarada de Interesse Galego e classificada de interesse cultural, com o número de inscriçom 54 e CIF:G15645518.


Para saberes mais, lê a definiçom da Artábria na wikipédia + info

Calendário de atividades

Onde estamos?

Travessa de Batalhons nº 7 rés-do-chao
(Esteiro) Ferrol-Galiza
Telefone: 981 352 986
correiodeartabria(arroba)gmail.com


Ver Os meus Locais guardados num mapa maior

Busca

Ferramentas do usuário

Feeds XML

powered by b2evolution free blog software