De Francis A. Boyle /Znet
Que é o que tem que fazer o mundo em frente às grandes atrocidades contra os direitos humanos e as catástrofes que, sem nengumha dúvida, tem lugar na actualidade? Desde depois, o mundo nom deve conceder aos grandes poderes militares como som os Estados Unidos, os estados que conformam a OTAN, Rússia e China nengum falso direito à intervençom humanitária que estes estados poderosos só utilizárom para abusar e manipular com o objectivo de justificar agressons militares contra estados menos poderosos e as suas gentes, para atingir os seus próprios interesses egoístas. Nom há necessidade de mudar ou actualizar a lei internacional existente na actualidade a fim de aumentar as possibilidades de umha "responsabilidade de proteger? militar em resposta a supostas novas exigências da época- existem mais que suficientes leis e organizaçons internacionais para se ocupar das grandes atrocidades contra os direitos humanos e as catástrofes que ocorrem na actualidade por todo mundo. A exigência de fazê-lo reflecte umha agenda política que procura legitimidade e nom um deficit na lei existente.
De facto, por trás da maioria das atrocidades contra os direitos humanos e as catástrofes que ocorrem hoje, a humanidade pode ver em funcionamento as maquinaçons maquiavélicas dos grandes poderes militares. Assim que nom deveria nos estranhar que o mundo fosse testemunha do indiscutível genocídio infringido por Servia e o governo de Milosevic contra os albano kosovares imediatamente após que os Estados Unidos e os estados da OTAN declarassem umha guerra ilegal contra Servia em Março de 1999, um genocídio que a OTAN reconhece que antecipou mas que em realidade sucedeu como resultado directo dessa agressom. Por suposto, aos Estados Unidos Cristians, de nome, e aos estados da OTAN importam-lhes um comino os direitos humanos básicos dos albano kosovares, a maioria deles muçulmanos. Ao pouco tempo, o mundo foi testemunha umha vez mais de um genocídio descarado infringido por Indonésia contra a populaçom de Timor Este, após que durante décadas a ditadura militar genocida de Indonésia recebesse apoio económico e militar de Estados Unidos e Gram-Bretanha nossa classe de homem, é como referiu publicamente o governo de Clinton ao genocida Sukarto durante a sua visita aos Estados Unidos.
Também neste sentido, o mundo nunca deve esquecer que os nativos de Canadá, os dos Estados Unidos e os de Latinoamérica tem estado submetidos a contínuos actos de genocídio durante os últimos 500 anos, todo isso baixo a desculpa de os civilizar. Como podem os Estados Unidos, e os seus aliados da OTAN, Canadá, falar de missons humanitárias em Afeganistám quando ambos estados tem umha longa história na prática da "extinçom humana? em casa? Apesar do slogan e a retórica do "¡Nunca mais!? que se utilizou com respeito ao holocausto nazista contra os judeus, o genocídio se converteu nos começos do século vinte e um, numha ferramenta a cada vez mais comum e aceitável quando os estados poderosos querem dominar a estados mais débeis e as suas populaçons.
Nengum estado tem o direito ou o amparo da lei internacional para lançar um ataque militar ilegal contra outro estado membro das Naçons Unidas no nome da "intervençom humanitária?. Este princípio é aplicável a ambos estados, os Estados Unidos e Canadá, que ainda hoje continuam exterminando aos indígenas que vivem dentro dos seus domínios imperiais baixo conceitos iguais ou similares ao humanitarismo. É aplicável a Gram-Bretanha e a sua prolongada ocupaçom colonial de Irlanda, também a deportaçom da populaçom de Diego Garcia. É aplicável aos patentes genocídios que Itália infringiu contra a populaçom de Líbia e Etiópia; os perpetrados por Espanha e Portugal contra os indígenas de Latinoamérica; o monstruoso genocídio de Bélgica no Congo; e os genocídios cometidos por França em Argélia e Vietnám, todos eles afirmando que era o melhor para os povoadores das suas colónias.
Como pode Turquia, membro da OTAN, reclamar algumha vez algum direito de intervençom humanitária em nengum lugar se temos em conta a sua longa campanha para submeter aos Curdos e também o seu anterior extermínio dos Arménios, um genocídio que ainda hoje seguem negando. Somente o genocídio da Alemanha Nazista contra os judeus foi reconhecido polo que foi. No entanto, só umha geraçom mais tarde, se supom que o crédulo mundo vai crer o conto da OTAN de que o Wehrmacht alemám está agora numha missom humanitária em Afeganistám. A agressom sem sentido de EE.UU. UK e a sua "Coaliçom da Vontade? contra Iraque em nome dos direitos humanos e a democracia resultou em quatro milhons de refugiados, mais de um milhom de mortes de iraquianas e a destruiçom da infra-estrutura do país genocídio indiscutível.
Os Estados Unidos e a sua Aliança da OTAN constituem a maior colecçom de estados genocidas reunidos em toda a história da humanidade. Se cabe, a Organizaçom das Naçons Unidas e os seus estados membros tem umha "responsabilidade de proteger? às vitimas das repetidas agressons de EE.UU. e da OTAN, tal e como deveriam ter feito em Haiti, Servia, Afeganistám, Iraque, Somália e agora Palestina. Os Estados Unidos e a OTAN junto com os seus aliados de facto como Israel constituem o verdadeiro Eixo do Genocídio do mundo moderno. A Humanidade tem a "responsabilidade de proteger? a futura existência do mundo dos Estados Unidos e da OTAN
(de "Tackling America's Toughest Questions, agora em Amazon.com)
Haiti no alma, de Eduardo Galeano
inSurGente.- No primeiro dia deste ano, a liberdade cumpriu dous séculos de vida no mundo. Ninguém se inteirou, ou quase ninguém. Poucos dias depois, o país do aniversário, Haiti, passou a ocupar algum espaço nos meios de comunicaçom; mas nom polo aniversário da liberdade universal, senom porque se desatou ali um banho de sangue que acabou volteando ao presidente Préval.
Haiti foi o primeiro país onde se aboliu a escravatura. No entanto, as enciclopédias mais difundidas e quase todos os textos de educaçom atribuem a Inglaterra essa histórica honra.
É verdade que num bom dia mudou de opiniom o império que tinha sido campeom mundial do tráfico negreiro; mas a aboliçom britânica ocorreu em 1807, três anos após a revoluçom haitiana, e resultou tom pouco convincente que em 1832 Inglaterra tivo que voltar a proibir a escravatura.
Nada tem de novo o negar a Haiti. Desde fai dous séculos, sofre desprezo e castigo. Thomas Jefferson, prócer da liberdade e proprietário de escravos, advertia que de Haiti provia o mau exemplo; e dizia que tinha que confinar a peste nessa ilha. O seu país escutou-no. Os Estados Unidos demorárom sessenta anos em outorgar reconhecimento diplomático à mais livre das naçons.
Enquanto, em Brasil, chamava-se haitianismo ao desordem e à violência. Os donos dos braços negros salvaram-se do haitianismo até 1888. Nesse ano, o Brasil aboliu a escravatura. Foi o último país no mundo.
Haiti voltou a ser um país invisível, até a próxima carnificina. Enquanto esteve nas telas e nas páginas, a princípios deste ano, os meios transmitiram confusom e violência e confirmaram que os haitianos nasceram para fazer bem o mau e para fazer mau o bem.
Desde a revoluçom para cá, Haiti só foi capaz de oferecer tragédias. Era umha colónia próspera e feliz e agora é a naçom mais pobre do hemisfério ocidental. As revoluçons, concluíram alguns especialistas, conduzem ao abismo. E alguns dixérom, e outros sugerírom, que a tendência haitiana ao fratricídio prove da selvagem herança que vem do África.
O mandato dos ancestros. A maldiçom negra, que empurra ao crime e ao caos. Da maldiçom branca, nom se falou.
A Revoluçom Francesa tinha eliminado a escravatura, mas Napoleom tinha-a ressuscitado: Qual foi o regime mais próspero para as colónias? O anterior. Pois, que se restabeleça?. E, para reimplantar a escravatura em Haiti, enviou mais de cinqüenta naves cheias de soldados. Os negros alçados venceram a França e conquistaram a independência nacional e a libertaçom dos escravos. Em 1804, herdaram umha terra arrasada polas devastadoras plantaçons de cana de açúcar e um país queimado pola guerra feroz. E herdaram ?a dívida francesa?. França cobrou cara a humilhaçom infligida a Napoleom Bonaparte.
A pouco de nascer, Haiti tivo que se comprometer a pagar umha indemnizaçom gigantesca, polo dano que tinha feito se liberando. Essa expiaçom do pecado da liberdade custou-lhe 150 milhons de francos ouro. O novo país nasceu estrangulado por esse baraço atada ao pescoço: umha fortuna que actualmente equivaleria a 21,700 milhons de dólares ou a 44 orçamentos totais do Haiti de nossos dias. Bem mais de um século levou o pagamento da dívida, que os interesses de usura iam multiplicando. Em 1938 cumpriu-se, por fim, a redençom final. Para entom, já Haiti pertencia aos bancos dos Estados Unidos.
A mudança desse dineral, França reconheceu oficialmente à nova naçom. Nengum outro país reconheceu-a. Haiti tinha nascido condenada à soidade. Tampouco Simom Bolívar nom a reconheceu, ainda que lhe devia tudo. Barcos, armas e soldados tinha-lhe dado Haiti em 1816, quando Bolívar chegou à ilha, derrotado, e pediu amparo e ajuda. Tudo lhe deu Haiti, com a sozinha condiçom de que liberasse aos escravos, umha ideia que até entom nom se lhe tinha ocorrido. Depois, o prócer triunfou na sua guerra de independência e expressou sua gratitude enviando a Port-au-Prince umha espada de presente. De reconhecimento, nem falar. Em realidade, as colónias espanholas que tinham passado a ser países independentes seguiam tendo escravos, ainda que algumhas tivessem, ademais, leis que o proibiam. Bolívar ditou a sua em 1821, mas a realidade nom se deu por inteirada. Trinta anos depois, em 1851, Colômbia aboliu a escravatura; e Venezuela em 1854.
Em 1915, os marines desembarcaram em Haiti. Ficaram dezanove anos. O primeiro que fizérom foi ocupar a aduana e o escritório de arrecadaçom de impostos. O exército de ocupaçom retivo o salário do presidente haitiano até que se resignou a assinar a liquidaçom do Banco da Naçom, que se converteu em sucursal do Citibank de Nova York.
O presidente e todos os demais negros tinham a entrada proibida nos hotéis, restorantes e clubes exclusivos do poder estrangeiro Os ocupantes nom se atreveram a restabelecer a escravatura, mas impugérom o trabalho forçado para as obras públicas. E mataram muito.
Nom foi fácil apagar os fogos da resistência. O chefe guerrilheiro, Charlemagne Péralte, fincado em cruz contra umha porta, foi exibido, para escarmento, na praça pública. A missom civilizadora concluiu em 1934. Os ocupantes retiraram-se deixando no seu lugar umha Guarda Nacional, fabricada por eles, para exterminar qualquer possível assomo de democracia.
O mesmo fizérom em Nicarágua e na República Dominicana. Algum tempo depois, Duvalier foi o equivalente haitiano de Somoza e de Trujillo.
E assim, de ditadura em ditadura, de promessa em traiçom, se foram somando as desventuras e nos anos. Aristide, o cura rebelde, chegou à presidência em 1991. Durou poucos meses. O governo dos Estados Unidos ajudou a derrubá-lo, levou-lho, submeteu-o a tratamento e umha vez reciclado devolveu-o, em braços dos marines, à presidência. E outra vez ajudou a derrubá-lo, neste ano 2004, e outra vez houvo matança. E outra vez voltaram os marines, que sempre regressam, como a gripe. Mas os experientes internacionais som bem mais devastadores que as tropas invasoras.
País submisso às ordens do Banco Mundial e do Fundo Monetário, Haiti tinha obedecido suas instruçons sem chistar. Pagaram-lhe negando-lhe o pom e a saia. Congelaram-lhe os créditos, apesar de que tinha desmantelado o Estado e tinha liquidado todos os impostos e subsídios que protegiam a produçom nacional. Os camponeses cultivadores de arroz, que eram a maioria, se converteram em mendigos ou balseiros. Muitos foram e seguem indo parar às profundidades do mar Caribe, mas esses náufragos nom som cubanos e raras vezes aparecem nos diários. Agora Haiti importa todo seu arroz desde os Estados Unidos, onde os experientes internacionais, que som gente bastante distraída, se esqueceram de proibir os impostos e subsídios que protegem a produçom nacional.
Na fronteira onde termina a República Dominicana e começa Haiti, há um grande cartaz que adverte: O mau passo. Ao outro lado, está o inferno negro. Sangue e fame, miséria, pestes. Nesse inferno tam temido, todos som escultores. Os haitianos têm o costume de recolher latas e ferros velhos e com antiga mestria, recortando e martelando, as suas maos criam maravilhas que se oferecem nos mercados populares. Haiti é um país arrojado ao lixo-monturo, por eterno castigo a sua dignidade. Ali jaz, como se fosse sucata ou pitada. Mentres, aguarda as maos de sua gente.