A poesia
é ridícula: escreve-a,
orgulha-te,
ufana-te ao espelho
e acredita que sabes.


Ikkyu Sojun

às vezes penso isto

    • either the good and the bad thing about the body is it has so little memory (27-04-2011)
    • si la corteza no nos deja ver el árbol y el árbol no nos deja ver el bosque, ¿que es lo que el... (20-02-2011)
    • deus pai deve de ser, por toda lógica, etéreo-sexual (13-02-2011)
    • Um beijo é tanto mais intenso quanto mais se achegue a uma ameaça de mordida que nunca chega. (28-01-2011)
    • A respiração profunda choca com a digestão. O espírito está no estômago. Alimenta-se daquilo que não... (28-01-2011)
    • O abraço é uma semente que protege com as costas o tesouro das tripas e o sexo. (28-01-2011)
    • "vivemos numa cultura em que mover-se compulsivamente ao som da música é normal, mas sentar-se e..." (15-01-2011)
    • "o nosso amor é infinito - a nossa atenção não" (01-01-2011)
    • "nenhum dia é um dia qualquer" (01-01-2011)
    • tenho a impressão que alguns discursos pró-vegetarianismo têm sérias dificuldades para entender a... (27-12-2010)
powered by b2evolution free blog software
Laru

Mal consigo lembrar-te:
aquele homem
de chapéu e de fato incompreensíveis
e a careca que tenho.
Não me vem à memória mais que a imagem
de um velho elegante no sofá da casa
de meus tios:
um homem alto, dignamente assentado
nos seus noventa anos. Tinhas
aquela idade e um sorriso
que para si queriam as crianças.
Mas mal consigo lembrar-te.
Imagino-te a vida
de olhada alegre e incisiva.
Talvez seja um recordo reflectido
nas pregas da cara de meu pai
que falam de ti.
Sofreste mas não soube. Papá
contou-me anos depois dos ideais políticos.
Da padaria ao mundo havia um passo
que não hesitaste em pedalar.
Deveste rolar muito de fato e bicicleta.
Lembro sim quando morreste: havia
uns bons meses que não ia visitar-te
e a notícia caiu como uma lousa.
Não fiquei triste por ti, mas por um fim
de semana perdido num enterro:
fervilhava-me a vida na cabeça
e faltava-me perspectiva.
Agora és-me só um recordo vago.
Quando penso em ti vem-me à memória
o espaço diáfano do lar de dia
a que ias jogar dominó.
E reconheço nas caras da família
a tua cara de alegria
quando há alegria.
Mais nada.
Que ferida
me tens deixado é um mistério.
Mas receio que um dia hei de encontrá-la
ao me apalpar a pele escorregadia
da cabeça sem pêlos.

minutos

cinco minutos

tensão nos pés que alastra
à respiração

respiração de aço
em corpo de veludo
totalmente acordado

o mar no estômago constrói as pontes


cinco minutos

depois o mundo

(loto, perna direita)
Patika Samuppada

no princípio é a ignorância um vácuo a fome de ser
depois a separação do tudo a consolidar a existência dalguma coisa a buscar outra
a seguir é o corpo-mente já separado da existência num espaço-tempo
a que logo nascem olhos ouvidos nariz língua pele e consciência
onde chega o contacto com o ser que ficou de fora e se reflecte na mente
que as classifica segundo goste ou não goste ou simplesmente ignore
e em consequência deseja interagir com elas
apega-se ou rejeita criando a mentira da duração no tempo
de um fragmento do tudo que foi trazido a ser sentido e portanto à impermanência
e o desejo frustrado dá lugar ao sofrimento que ofusca a consciência
e cria a ignorância um vácuo a fome de ser e portanto
a separação do ser em relação ao tudo que quer ser uno e busca
ser buscador aqui e agora criado pela própria busca
e tem consciência de si próprio porque tem sentidos e sabe
que os sentidos lhe dão notícia daquilo que busca
e às vezes gosta ou não gosta daquilo que lhe dizem
e quer ficar com isso ou fugir-lhe a pensar mesmo
que poderão manter-se porque quer que se mantenham
mas as coisas não respondem ao que quer e por isso
nasce a dor que lhe apaga a vista e volta de novo a não saber
que foi separado por uma existência não completa
que se buscava a si própria e nessa busca condicionou o ser-se
que originou a consciência sobre o próprio corpo aqui e agora
e aguça os sentidos ao ganhar a consciência dos sentidos
que claramente trazem uma impressão do mundo
e vê as sensações que se colam à impressão e apesar delas
mantém-se neutro sem lhe fugir nem agarrá-las
deixando apenas que durem a duração no tempo
sentindo a dor sabendo a dor e quem padece renascerá de novo
na própria existência iluminada do tempo unificado

牛鬼

Às vezes o medo ao fracasso. Às vezes
o medo ao sucesso.

Sempre
a vertigem do salto
para o outro lado de um próprio.

Às vezes um monstro que atormenta.
Às vezes um espelho que te chama estúpido.

Sempre
o medo.

Saltá-lo é
fitá-lo nos olhos
e esperar que se esboroe.

Às vezes desaparece mesmo. Às vezes
persiste em perseguir-te.

Mas sempre
mede.

O medo.

(meio loto, pé esquerdo)
u

no início é tudo tenso nos nervos da madeira

depois é tudo mar contra uma rocha
alçada ao pé do umbigo

rangem as ramas quando o vento sopra
e oscila a árvore

mas despregamos pulmões
retesando a espinha
que indica o azimute do universo

e navegamos o intestino
sobre a barca das pernas

até voltarmos a porto inadvertidamente

(meio loto, perna direita)
u.

na corrente de sangue o meu nariz procura
o lugar natural do seu alento

nervos de formigueiro a percorrer as pernas
e uma força inconsciente a me arquear os braços
que respiro pra fora inadvertidamente

tudo longe daqui onde o silêncio
se faz por baixo do umbigo

aqui
é tudo

e o vento espana a palavra
em que se inscreve o mundo circundante

(meio loto, perna direita)
zazen prosaico

em cima do travesseiro enrolado
o rabo a esvarar molezas
equilibra o castelo de cálices
o corpo
enrolado também luta
pela expansão das costas que mal podem
procurar o equilíbrio e a vertigem
de respirar para o abismo

(quarto de loto, pé esquerdo - com travesseiro por zafu)
corpo

as brasas no interior do vento
apagou-as a tensão da madeira

na solidez da veta mais escura
borboletava a dor
contida
da moleza do umbigo

essência de ar lateja ainda
no ventre do sino
contendo as vozes do metal fundido

ómega
om
sineta

e corpo saranam gachamin
no coração do medo

(meio loto, perna esquerda)

1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 ... 23 >>