às vezes penso isto

    • Os esqueletos não têm sexo, mas na mesma fazem amor quando nós fazemos. (20-10-2012)
    • Salvação é uma palavra gorda e avelhentada. (23-09-2012)
    • Comemos com a fome dos nossos avós. /  Estudamos com a vontade de aprender / dos nossos pais. Será... (19-07-2012)
    • A realidade é a memória da existência (26-05-2012)
    • Decir ‘amor’ es fácil, pero expresarlo… (19-05-2012)
    • É difícil seguir a natureza, mas continuá-la é inevitável. (10-05-2012)
    • A verdadeira compreensão é uma expressão (11-04-2012)
    • Esta euforia não me pertence (18-03-2012)
    • nem o amor nem deus nem a beleza: nada que eu crie é maior que eu próprio (11-03-2012)
    • Apartar a vista da verdade nunca é bonito (09-03-2012)

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mina

gostava de falar de corcoesto
cabana de bergantinhos
galiza
mas faltam-me palavras
para dizer
enchi
distrito aomin-suaman
ghana

quero falar de corcoesto
e chego definitivamente tarde
á floresta tropical

quantas palavras
já deitei na lixeira procurando o verso certo

quantas vezes busquei a informação precisa
para o verso preciso
que nunca chega

mas quero falar de corcoesto e enchi

debruço-me a esta janela que é um ecrã em branco
e deixo que as palavras digam
da ética do ganho por cima de qualquer coisa
o mundo à volta do lucro sem pensar na terra que vamos deixar aos filhos
os filhos e nós próprios a respirar arsénico ou cianeto
a facada à paisagem que nunca mais seremos
o ouro como metáfora do valor deslocado da realidade ao símbolo
a cegueira de uma promessa que são só palavras vazias de político medíocre

sinto-me intoxicado ao ver no ecrã da sala tanta mentira repetida uma e mil vezes

mentiras de ouro
mentiras de arsénico
mentiras de cianeto

então deito-me no sofá e fecho os olhos

e quero falar de enchi mas não sei que coisa seja corcoesto nem ghana
nem o cianeto nem o arsénico nem balsas

o ouro agarra-se-me aos dedos e não posso mover um músculo

o arsénico no cérebro faz que não respirem os neurónios
o cianeto envereda nos pulmões e mal respira o meu corpo

e logo a dor de cabeça os vómitos os desmaios
e acordo e fiz cocó sobre mim próprio
e acordo e fiz xixi sobre os meus versos
e acordo e fiz cagada sobre a paisagem de corcoesto
ghana cabana de bergantinhos enchi planeta galiza mundo

e então abro os olhos
e falo de corcoesto
e enchi

a mesma mina
a céu aberto
e coração fechado

Bàrbara

as tuas fotos vêm comigo
de casa em casa
de escuro a escuro
esconderijo

nelas estás nua
e nelas
estamos nós
há tanto tempo
nus

tu tão bonita
eu
tão tristemente homem

aquela miúda que ficou comigo
no papel fotográfico
e na memória
também ficou na vida

às vezes penso como pude
conseguir que me amasse
tanta beleza

é claro que não pude

é um mistério de esfinge que me ames
como o teu corpo que produz orgasmos

no teu umbigo remoinham-se arrepios
da minha pele
xiqueta que sempre foste
e és

falta-me tantas vezes o teu corpo breve
quase apagado nos meus braços

os teus peitos que não se apartam dos meus olhos
o teu sexo
que consegue engolir-me inteiro apenas por um apêndice

hoje escrevo estas palavras na distância
amanhã
terei contigo

então verei a prova da constância
desta mente de mono enlouquecido

e oxalá possa abraçar-te intensamente
e aguentar no sofá durante horas
as séries de que gostas

e oxalá o teu cabelo não me moleste no nariz
e possa abraçar-te deitadinhos
tentando acalmar-te quanto possa
as dores menstruais

mas entretanto
estás aqui
nos meus dedos
feita papel
e cores

deusa dos meus instintos
senhora dos meus pecados

menina e moça desse olhar malandro
que me desperta ao coração do mundo

Dois poemas para o meu amigo Bôsai

Pois é, sou realmente um asno
que mora entre árvores e plantas.
Não me perguntem sobre as ilusões e a iluminação -
este velhote só gosta de sorrir para si próprio.
Vagueio pelos riachos com as minhas pernas ossudas,
e levo comigo uma sacola no bom tempo da primavera.
Essa é a minha vida,
e o mundo nada me deve.

A beleza chiante deste mundo nada me diz -
os meus amigos mais próximos são as montanhas e o rios,
as nuvens engolem a minha sombra segundo vou passando.
Quando me sento nos penhascos, os pássaros pairam sobre a cabeça.
Calçando chinelos de palha para a neve, visito aldeias frias.
Vai tão fundo quanto puderes na vida,
e poderás esquecer-te até das flores.

* * * * * *

Um trilho solitário entre dez mil árvores,
um vale nevoento entre mil cimeiras.
Ainda não é outono, mas as folhas já estão a cair.
Por enquanto não chove, mas na mesma as rochas escurecem-se.
Com o meu cesto, procuro cogumelos;
com o meu balde, vou procurar água pura da nascente.
Se não te perderes de propósito,
nunca vais chegar tão longe.

Subo ao Corredor da Grande Compaixão
e olho para as nuvens e o nevoeiro.
Árvores antigas estiram-se para o céu,
e a brisa fresca fala de dez mil gerações.
Por baixo, a Nascente do Rei Dragão -
tão pura que podes ver o seu princípio.
Às pessoas que passam, grito
'Venham! Venham ver-se refletidos na água!'.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Dewdrops on a Lotus Leaf - Zen Poems of Ryôkan, Shambala, 1993, USA. Ilustração de Kameda Bôsai no livro de pintura literária Kyochusai - (Montanhas do Coração)

(Ryôkan)

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