A poesia
é ridícula: escreve-a,
orgulha-te,
ufana-te ao espelho
e acredita que sabes.


Ikkyu Sojun

às vezes penso isto

    • É difícil seguir a natureza, mas continuá-la é inevitável. (10-05-2012)
    • A verdadeira compreensão é uma expressão (11-04-2012)
    • Esta euforia não me pertence (18-03-2012)
    • nem o amor nem deus nem a beleza: nada que eu crie é maior que eu próprio (11-03-2012)
    • Apartar a vista da verdade nunca é bonito (09-03-2012)
    • either the good and the bad thing about the body is it has so little memory (27-04-2011)
    • si la corteza no nos deja ver el árbol y el árbol no nos deja ver el bosque, ¿que es lo que el... (20-02-2011)
    • deus pai deve de ser, por toda lógica, etéreo-sexual (13-02-2011)
    • Um beijo é tanto mais intenso quanto mais se achegue a uma ameaça de mordida que nunca chega. (28-01-2011)
    • A respiração profunda choca com a digestão. O espírito está no estômago. Alimenta-se daquilo que não... (28-01-2011)
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Presente

Gostava de
oferecer-te algo
para ajudar-te
mas no budismo Zen
não há nada que nos pertença!

Ensô

Chegar em solidão,
partir em solidão,
as duas coisas são falsas.
Deixa-me mostrar-te
como não partir nem chegar.

De todas as coisas do mundo
nada mais há
de que congratular-se
que uma velha caveira
gasta pelo tempo.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

Verdadeira morada

A minha verdadeira morada
não tem alicerces
nem teto
por isso a chuva não pode molhá-la
nem o vento deitá-la abaixo

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

Iluminação e engano

Sem princípio nem fim esta única mente nossa.
A Mente Original não pode tornar-se Natureza de Buda.
A Budeidade Original é só conversa maliciosa de Buda.
A Mente Original dos seres que sentem não é senão ilusão.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

Relatividade

Buda morreu mesmo quando a natureza voltava à vida.
Uma espada separa limpamente alma e corpo.
É difícil obter a budeidade que nem nasce nem morre.
Flores aparecem e desaparecem incesantemente na primavera.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

Flores geladas

Encaixado no chapéu cantando versos por trás de uma simples lanterna.
Um monge poeta simplesmente segue a natureza, sem um caminho marcado.
A chegada da primavera aquece a minha melancolia, mas a noite ainda é tão fria
que até congela os rebentos de ameixieira do meu papel de caligrafias.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.O título é meu

(Ikkyu Sojun)

Crisântemos vagarosos no jardim sul

Os últimos crisântemos do fim do outono esvaecem-se ao longo da sebe do este;
encaro as montanhas do sul, com os meus pensamentos demasiado longe.
Nada sei dos Três Essenciais ou os Três Mistérios do Zen.
Em lugar disso deleito-me na elegância dos versos de Yuang-ming.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA.

(Ikkyu Sojun)

Mortos

Se abríssemos os olhos lá estariam
feitos maré.

Ondas do mar do tempo que nos leva,
sal da vida à mistura: nós os peixes
feitos de mar.

Mas pesam-nos moedas sobre os olhos
para pagar barqueiros.

Morremos nos vivos que nos seguram,
e nascemos dos mortos que nos levam.

Temos medo do mar que nos envolve
e somos nós;
movimento ondular que perpetua a vida.

No fundo,
as moedas enterram-se na areia
porque nada há a pagar.

Não há barqueiro.

Apenas mar.

Isso enterramos.

Um ermitão solitário nas montanhas

Gosto mais quando ninguém vem.
Prefiro a companhia das folhas caídas e as espirais de flores.
Simplesmente um velho monge Zen, vivendo como devia:
ameixeira murcha a que brotam cem rebentos súbitos.

Tradução do inglês a partir do trabalho de John Stevens. Wild Ways, White Pine Press, 2003, USA. Ilustração de Kazu Shimura

(Ikkyu Sojun)

Tags: ikkyu, poesia, zen

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