às vezes penso isto

    • Aquilo que sou não é derrota nem fracasso daquele que creio que sou. (20-02-2014)
    • Os esqueletos não têm sexo, mas na mesma fazem amor quando nós fazemos. (20-10-2012)
    • Salvação é uma palavra gorda e avelhentada. (23-09-2012)
    • Comemos com a fome dos nossos avós. /  Estudamos com a vontade de aprender / dos nossos pais. Será... (19-07-2012)
    • A realidade é a memória da existência (26-05-2012)
    • Decir ‘amor’ es fácil, pero expresarlo… (19-05-2012)
    • É difícil seguir a natureza, mas continuá-la é inevitável. (10-05-2012)
    • A verdadeira compreensão é uma expressão (11-04-2012)
    • Esta euforia não me pertence (18-03-2012)
    • nem o amor nem deus nem a beleza: nada que eu crie é maior que eu próprio (11-03-2012)

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Nela

Penteaste-me os cabelos de espiga de milho,
menina triste na carteira da escola.
Lavaste-me o corpo todo e chupei nas tuas tetas
impossíveis de abranger.
Agora olhas pra mim desde esta foto
que atravessa o tempo
e o teu globo ocular é um mapa múndi.
Às vezes vejo-me eu próprio com o mesmo
medo com que me espreitas nesta imagem.
Às vezes busco em ti um começo de tudo
impossível no fundo.
Às vezes não vejo fundo nos teus olhos.
Mas tu seguras a carteira
como a buscar uma certeza a que agarrar-te
na vertigem do tempo.
Tu que confundes Viena com Veneza,
e tanto mundo correste,
és só uma menina agora na carteira da escola,
o corpo mais pequeno numa ilha pequena
em que me rebentou a vida.
Nem imaginas o que chegou depois da infância.
Quase nem eu, que sou depois de tudo, sei dizer-te
da irmã loirinha como uma boneca de verdade
que nunca deixaste de cuidar,
como entraste na fábrica e conheceste
um homem baixo e feio que te cativou
(é assim a vida)
e casaste e pudeste ver o mundo
dos mapas do teu pai.
Depois vieram filhos que cuidaste,
e tempos depois eu,
loirinho e lindo
como ninguém consegue imaginar-me.
O tempo passa assim mas tu nem sabes:
só pensas coisas tristes na carteira.
Talvez teu pai,
o rude marinheiro,
que vais saber depois cheio de sonhos,
te imponha medo.
Ou tua mãe a pobre esposa
que quer ser senhorita
fechada numa casa em Pedra Serrada.
Estás tão séria que não sei dizer-te
se foste feliz durante a infância.
Oxalá pudesse fazer-te coceguinhas
para te ver os dentes,
e pegar na tua mão dentro da minha
para levarmos os olhos de passeio.
Por isso passo os meus pelo mapa da vida,
e por isso te faço rir por minha boca
a cantar a tabuada.
Por isso seguro agora a tua mão que existe
dentro de mim:
a que abarca a minha nos momentos difíceis,
a que segura a carteira contra o tempo.
A mão que penteou o milho,
a tua irmã,
os teus filhos
e é a mesma
mão com que escrevo.

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