Falando em pássaros

SARA E OS PÁSSAROS


Beijava a relva com os pés.
Passava
como uma aragem pelo chão molhado.
Levemente vincava nos seus passos
as nuvens de algodão,
o vento vindo
do movimento mortecino das minhocas.
Pássaros não voavam:
eram hinos
chiando sob a pele portas velhas.
Pássaros tristemente acordando no ninho.
Pássaros
interminavelmente tremendo nos corredores do corpo,
gritando pássaros nas mãos, nos beiços,
pássaros nos seus olhos onde cabe o mundo.

Passou-se assim. Na noite
artificial, onde não há consciência,
um salto.
Uma queda infinita suavemente livre.
Uma garra ou quinhentas acariciando o vento.
Um movimento que arrastou um melro.
Uma boca ou um poço, uma roldana
descendo pássaros molhados.
Passou-se assim. Os pássaros
achegaram-se à boca ou ao contrário.
Chiaram estorninhos, repetiram
vozes caladas, nebulosos cantos.

Sara mordeu, os pássaros calaram.

Uma pena figiu-lhe ainda da boca.

Posso senti-la agora no ar pairando.

Não me publicaram este na Sítio, mas faz parte da mesma série que os poemas que lá estão publicados. Saiba, seu Óscar, que não tinha visto Saraband, mas estou à procura dela. Também fiquei mesmo com vontade de a ver.

Publicações

A tenho em minha posse. :-)

São Valentim

...e como sempre me acontece nestes casos, ando a voltas com aquele poema de Luis Cernuda...

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