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Percursos

Sou um desenhador gráfico medíocre.

Sou um informático ínfimo.

Sou um professor normalinho.

Era um poeta e já não sou.

É verdade que desfruto com o que faço. Mas há dias como hoje que me pergunto onde ficaram as aspirações passadas.

Isto tinha um nome que li há pouco. Síndroma de não-sei-quê: há tantas coisas interessantes para fazer que afinal resulta impossível centrar-se apenas numa.

Aprendi a sonhar da minha mãe. Ou talvez fosse simplesmente a sua presença feminina que fez com que não morresse essa aspiração natural que é imaginar-se melhor e querer sê-lo. Aprendi do meu pai a ser pau para toda a colher, uma pessoa útil, não negar-me, em geral, ao trabalho, e não desprezar esforços, por insignificantes que pareçam, enquanto forem necessários. Bem pensado, talvez simplesmente tenha aprendido as duas coisas dos dois, pai e mãe. E o resultado, suponho, só podia ser isto que sou: alguém disposto a fazer o preciso para o nascimento do sonho de a minha língua vir a ser a portuguesa.

Mas houve um tempo em que me sonhei sobretudo poeta. Escrevia por volta de dois poemas por dia, quando era novo. Depois comecei a deixar de parte a quantidade, mais preocupado pela qualidade. Aos 24 anos, acho que a sensibilidade poética virara modo de vida, graças em grande parte à intervenção da prática do budismo Zen. O poema devia ser sobretudo uma verdade, e passei a entender porque Antero podia pertencer à mesma geração que Eça. Líamos Cioran, Kierkegaard, Lautreamont, Pessoa, Saint-Exupéry somados à minhas anteriores leituras de Valente, que tanto me marcara.

Há pouco disse-me Ramom "tínhamos leituras duras, podíamos ter chegado a ser uma geração das boas". "Só faltava sermos mais de dois", retorqui irónico. E receio que os dois temos razão.

E sem ter morrido a esperança de vir um dia a ser poeta, eis que muitos que na altura considerava maus escritores(sempre, é claro, do meu ponto de vista de um poema precisar ser uma verdade) persistiram na escrita e na vontade de se fazerem públicos. Eu, no entanto, virei-me para as coisas úteis (as que eu considerei, é claro). Fiz-me linguista porque achei que eram precisos professores de língua portuguesa. Nos diversos movimentos em que estive, decidi empregar os meus parcos conhecimentos de composição estética para fazer aquilo que ninguém fazia: aprendi a desenhar coisinhas e fazer leiautes vários com o meu computador. A partir daí, acabei por entrar a fazer parte da equipa do PGL de mão do Valentim, em princípio para fazer imagens, mas logo acabei por aprender quatro noções de desenho web que me foram levando até criar estes blogues todos, e hoje até me ocupo também do Portal. Aqueles que persistiram continuam a ser poetas. Eu sou um responsável técnico.

E não me foi mal, é claro. Não me queixo. Mas às vezes é-me difícil reconhecer-me no passado e preciso vir a este blogue para lembrar os percursos. Desculpem se macei. Já deixo a lareta.

8 comentários

Comentário de: O Congro [Visitante]  
O Congro

Síntome profundamente identificado (gardando a distancias). E sempre me pergundo se a isso se lhe chama “madurar” ou “nom ter huevos".

12-03-2007 @ 17:41
Comentário de: eugeniote [Visitante]  
eugeniote

Eu suspeito que seja mais madurar, até porque me imagino perfeitamente a fazer-me a mesma pergunta se tivesse optado apenas pela poesia. Mas sim, a dúvida está la.

14-03-2007 @ 01:42
Comentário de: AG Montoliu [Visitante]  
AG Montoliu

Bemvindo ao clube.
@s que temos inclinações artisticas temos este problema, sempre queremos mais i fazemos muitas coisas porque estamos na vida para apreender.
Passei tudo o fim-de-semana a desenhar, quando deveria fazer alguma coisa pelo meu futuro professional… Mas ser artista total é tão dificil… E tambem estou a ensenhar… e este trabalho parece que não mas tira tempo…
E penso, esta não era a vida que eu queria, eu queria alguma coisa diferente, não melhor… mas mais excitante.
Vejo que não estou só.

25-03-2007 @ 19:49
Comentário de: suso [Visitante]  
suso

For he’s a jolly good fellow!
For he’s a jolly good fellow!
For he’s a jolly good fellow!
And so say all of us!

http://www.mwscomp.com/movies/brian/brian-31.htm

27-03-2007 @ 13:20
Comentário de: Croios detector [Visitante]  
Croios detector

etapa audiovisual, don’t forget it!

28-03-2007 @ 10:27
Comentário de: eugeniote [Visitante]  
eugeniote

AG Montoliu, obrigadíssimo pela tua mensagem. Serviu-me também para me sentir acompanhado.

Suso, és o maior…

Croios detector, de tanto insistir afinal vai acabar por ser mesmo a etapa audiovisual…

30-03-2007 @ 18:08
Comentário de: Rodrigo Inácio [Visitante]  
Rodrigo Inácio

Se tens interesse, participa de nossa lista de discussão sobre Cioran em português:

Planeta_Cioran-subscribe@yahoogrupos.com.br

http://br.groups.yahoo.com/group/Planeta_Cioran/

31-03-2007 @ 21:55
Comentário de: Miro [Visitante]  
Miro

Pois eu também estou numa etapa na que me pergunto se existe verdadeiramente uma contradição insalvável entre o homo technicus e o homo poeticus, ou se, simplesmente, imos velhos. Eu particularmente, quando tento deitar sobre mim próprio a olhada do eu mais novo, assusto-me. Meto-me medo a mim próprio. Como virei duro, frio, calculador, insensível. Se calhar foi a ciência que curtiu a minha pele. Se calhar foi o mundo anglo-saxão que me fez à sua imagem e semelhança. Se calhar foi o mundo, em geral. Se calhar foi a dor. Se calhar, vou velho. Olho para mim e vejo um bruto, um bárbaro (no sentido etimológico ou pseudo-etimológico, não pensem que é vaidade). Não é apenas uma crise vocacional, eu nunca quise ser poeta e, seja como for, ganho a vida duma forma relativamente criativa, é uma cousa mais ?profunda?. É como se eu próprio me tivesse forçado a levar um uniforme e a marchar pela vida com passo militar. Felizmente, é o passo do ganso o qual me permite ainda rir de mim próprio ;-)

13-05-2007 @ 12:17