Já participei em recitais. Já quis pôr a poesia na rua. Já fiz parte de algum espectáculo poético interdisciplinar. Mas a única maneira que eu tive de senti-la foi na solidão e no silêncio do meu quarto. Por isso, e ainda que talvez essa vivência contravenha as próprias origens da poesia, para mim o poema (que continua a ser a unidade básica) pertence aos âmbitos em que o indivíduo se enfrenta só ao universo, sem músicas que façam de banda sonora nem outras pessoas a compartilhar a experiência. Talvez no passado a poesia fosse "um dizer", mas para mim, hoje e aqui, continua a ser "um ler" ou "um escrever". E não é um facto social, ou só é no sentido em que se pode ser sociedade quando se está só. Por isso na vida que fui escolhendo a poesia é cada vez mais um fenómeno de casa de banho. E se algum dia quisesse mostrar os meus poemas fora destas páginas, esse seria, sem dúvida, o meu âmbito de preferência.
Para mim, por contra, ao revés.
De ser umha experiência pessoal, intima, silenciosa, mesmo tímida, passou a ser, de vagar, umha experiência colectiva, plural, sonora, mesmo extrovertida.
Mas umha cousa nom é incompatível com a outra. Tudo o contrário: som complementares.

Para dizer verdade, caro, sempre senti um pouco de invejá (sã) pelas pessoas que, como tu, conseguem fazer da poesia um fenómeno plural. Por isso tentei sempre participar dessas iniciativas, e -diga-se de passagem- as tuas sempre achei magníficas.
Caríssimo Eugénio, “o primeiro lampejo” da poesia é o dizer, não é? O que vem depois é elaboração poética, trabalho de pedreiro sobre aquela luz (as vezes intolerável)oferecida pela inspiração.
Não é minha esta reflexão,é de João Cabral de Mello Neto, o meu poeta favorito. Mas também me encontro naquilo que dizes - ou melhor dizendo não sei ainda onde é o meu lugar, ou o lugar onde ponho o meu poema.
Com um abraço daqui, desta Lisboa Revisitada.
o wc é o melhor sítio para a poesia. De facto é onde tiramos o melhor que levamos dentro. E por certo, quando menos é poesia sincera, monocorde, monocor, beleza pura. Outros fazem poesia na Galiza e acham que os seus som lugares mais elevados. Merda e concentraçom! respondo.