Inactividade

Escrevi há uns poucos dias o que agora acredito ser o melhor poema da minha vida. Acontece como sempre. Emociono-me, projecto nessas palavras um ideal poético, e nada, já nada pode contentar-me. Escrevo qualquer coisa mas parece vazia. E talvez não seja, mas acho impossível passar dos primeiros versos. A própria ideia, estrutura ou o que for do que vou escrever revela-se-me estúpida e sem sentido, porque não atinge o ideal do que já fiz. Às vezes consigo autoconvencer-me que ainda posso escrever qualquer coisa de bom, que se o fiz uma vez posso fazê-lo outra, que eu consigo, se tentar. E é então que tento. E é então que chega o pior. Porque é quando percebo que estou a repetir o poema de referência. Emprego qualquer palavra que apareceu já antes e tenho a sensação de estar a rescrever o escrito. Pior. Emprego essa palavra e volto a lembrar o poema inteiro, e percebo que o que estou a escrever não serve para nada, que não atinge tudo para o que foi pensado.

Então deixo a caneta ou desligo o computador, segundo o caso. Acendo um cigarro, sento-me a ver TV ou saio a caminhar à praia. E entre fumaça e fumaça, publicidade, passo e passo, dou uma olhada dentro, procurando palavras. E começo a martirizar-me pelo meu silêncio.

02- 02 - 2004, intimidades
faz sentido?

...e de repente as coisas deram em acontecer à velocidade da luz. Como por acaso sentei-me perante o computador e comecei a escrever um poema que se revelou naquilo a que aspirava desde tempo e tempo. Subitamente descobri o Mediterrâneo numa noite fugaz em que o céu e o mar calmo se confundiam com uma única parede negra -uma parede que escoava espumas na base - e fiquei maravilhado. Repentinamente reparei que havia alguém do outro lado do fio, que não estou só em sentido estrito, que o meu gato é a projecção astral de um espírito amável. E de repente, também, vi-me transportado aqui, comecei o trabalho e percebi de novo que desfrutar da vida neste fim-de-semana tinha sido o começo de uma recriminação injusta por não ter feito o que devia. Mais uma vez, o mundo em contra. Mais uma vez, eu contra o mundo. É uma reacção irracional - eu sei-o. Mas faz sentido! Fez sentido! Faz sentido!

Poema actual à minha moda

Houve um silêncio.
Tudo se resumiu em frio.
Bateram nas entranhas do planeta
certas ausências,
cálculos decimais,
distâncias.
Partiu-se o gelo de tão frio
e houve
súbito um hesitar da consistência.
Vacilações cutâneas de mar em calma
abalaram o invólucro do ser.
A perfeição desfez-se.
E nada pode já recuperá-la.

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