
Publicamos hoje em Angueira de Suso a primeira versom do texto que, por encomenda dos camaradas do grupo local compostelano da AGAL, escrevemos para o primeiro número da nova época digital do Constantinopla, histórico boletim da Assembleia Reintegracionista Bonaval reeditado agora como órgao de expressom da AGAL-Compostela.
A versom publicada neste último número do Constantinopla (Constantinopla Nº 19, págs. 1 e 3) é a segunda e definitiva e é umha versom reduzida deste.
Continua:
PORQUÊ SOU REINTEGRATA?
Eu sou reintegrata graças a um dicionário ou, se preferides, pola sua culpa. Mas, ao contrário do que se pudéssedes pensar, nom sou reintegrata pola culpa do Estraviz, nem do Aurélio, nem do Dicionário da Porto Editora, sou reintegrata graças ao Diccionario Xerais da Língua (DXL). Palavra.
“Eu sou ateu graças a Deus”, dizia com fina ironia o cineasta Luís Buñuel. Do mesmo jeito, paradoxal só em aparência, eu sou reintegrata graças ao DXL, livro que para algumhas pessoas (como a super-tacanhona do Cifras e Letras) é pouco menos que palavra de Deus revelada. O que o DXL diga, vai a missa.
O DXL entrou na casa dos meus pais da mao dumha vendedora do Círculo de Lectores. Deve haver vinte anos disso porque o exemplar que temos na casa familiar pertence à primeira re-impressom, de Fevereiro de 1987, da sua primeira ediçom, de Dezembro de 1986.
Era um livro ao que num princípio tinha bastante apreço. Gostava da clareza da sua maqueta, das primorosas ilustrações do Xoan Carlos López Domínguez e de que todas as palavras vinhessem com a sua correspondente etimologia.
No caso dalguns vocábulos, ao final do verbete, o DXL trazia as variantes dialectais diferentes à variante preferida pola norma. Mas nom todas. Suspeitosamente o DXL nom incluia variantes cuja exitência no território da Comunidade Autónoma de Galicia (CAG) estava documentada, pois eram empregues na minha casa na hora do almoço, mas que coincidiam, vaia por Deus, com o português padrão.
Assim, por exemplo, se procuramos no DXL a palavra nocelo lemos: “nocelo (de noz). s. m. Avultamento que forman a tibia e o peroné na unión da perna co pé. VAR. Nocello, noelo, nortello.” Tudo muito bem nom fosse porque nom di umha palavra da palavra tornozelo, que é como toda a vida lhe chamamos aos tornozelos ou artelhos na minha casa.
Um outro exemplo: “ervella (lat. ervilia) s.f. 1. Planta leguminosa con froito comestible que se emprega como condimento. 2. Froito desta planta. 3. Nalgúns lugares de Galicia, faba. VAR. Ervello”. Comeram as ervilhas que a minha mae botava na veiga e ainda bota!
Continuando polo ch de chícharo: “choiva V. chuvia”; “chuvia (lat. Pluvia pluere = chover)" etc, etc, etc. Como quem ouve chover! A chuva*, que é como em Bueu lhe dizemos à chuva, tampouco existe para o DXL!!!
Os principais valedores da norma ILG-RAG nom só nom escolhiam para o galego normativo aquelas variantes coincidentes com o português padrão (cousa que eu, enquanto proto-reintegracionista, veria com bons olhos) senom que sistematicamente ocultavam a sua existência!
Suponho que daquela eu pensava que galego e portugês eram línguas diferentes. Diferentes mas muito parecidas. E nom via que problema havia em tirar vantagem deste assombroso parecido (lembro-me de discutir sobre isto com o Xesús Ferro Ruibal, na altura professor de latim no I.N.B. Salvador Moreno de Marim, onde figem o Bacharelato).
Por isso me enfadei tanto quando descobrim a fraude perpetrada polo DXL. Era claro que se tratava de criar umha Língua Galega afastando-a artificialmente do Português. E eu nom podia concordavar com isso em absoluto!
A pouco a pouco fum passando do filo-reintegracionismo ao reintegracionismo praticante. A minha evoluçom ortográfica (normativo, mínimos, máximos, padrão...) pode ser acompanhada através das charges que, entre 1994 e 2002, publiquei n’A Nossa Terra.
Contudo houvo nessa evoluçom pessoal um ponto de nom retorno. Esse momento produziu-se durante a visita que, no domingo 19 de Agosto de 2001, figem ao minhocário do Assentamento Terra Vista, do MST, na Bahia. Mas essa é umha outra história. Umha história que o meu amigo J.R. Pichel me fijo repetir tantas vezes que quase cheguei a aborrecé-la. É brincadeira, “uma língua que chama minhocas às minhocas não pode ser outra língua!”
Suso Sanmartin* Para o meu escândalo a palavra chuva era exemplo de lusismo no livro de Língua Galega (Edicións Xerais de Galicia) que eu tinha em 3º de B.U.P. (?). Resulta que na minha casa éramos, sem sabé-lo, umha data de lusistas!
Escrito em 18-04-2007,
na categoria: LA QUESTIONE DELLA LINGUA (degli coglioni)
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