Carlos Reis

14-10-2008

RECORRÊNCIAS, GAMANÇOS, LÍNGUA, GALIZA

Carlos Reis

A respeito do acordo ortográfico, às vezes observa-se uma confusão entre ortografia e outros aspectos da língua, nomeadamente pronúncia, morfo-sintaxe e léxico. Acha que as posições contrárias a respeito do Acordo Ortográfico nascem da ignorância ou da má vontade?

Nalguns casos eu creio que nasce da ignorância e noutros casos nasce de uma má vontade criada pela ignorância. A verdade é que eu até posso compreender, de um ponto de vista emotivo, estas reações por que a ortografia é um aspecto da língua que está muito ligado ao nosso corpo. Nós escrevemos com a mão e isso cria uma espécie de ligação indireta entre a língua e o corpo; mudar a ortografia para muita gente é, um pouco, como mudar o corpo.

Se a pessoa não tiver a noção de que a ortografia tem muito de convencional e, sobretudo, se não tem perspetiva histórica do que foi a mudança da ortografia ao longo dos séculos, acho que – e eu respeito isso, mudar a ortografia é mudar ela mesma, e de aí resulta uma tremenda confusão entre o código da escrita, que é muito convencional, e a identidade cultural, linguística etc.

E isso que para algumas pessoas é uma confusão para muitas outras é uma atitude emocional que eu posso compreender, sobretudo quando as pessoas não se lembram de que ao longo dos séculos a ortografia foi mudando e as pessoas foram ajustando o seu corpo à ortografia.

E um pouco como – todos nós temos esta memória, há vinte anos escrevíamos em computadores grandes, com teclados grandes, há trinta anos escrevíamos com uma caneta, hoje escrevemos em computadores pequenos e o nosso corpo foi-se adaptando a isso e com a ortografia vai acontecer a mesma coisa.

Entrevistado no PGL.

BLOGADO ÀS 14:02:49

2 comentários

Comentário de: Nuno [Visitante]
Concordo totalmente a língua é orgânica e evolui, os Acordos Ortográficos existem justificadamente por esse motivo.

Existem é modos de o fazer e um modo de não o fazer é confundi-lo com um esforço diplomático e não como uma expressão da especificidade e riqueza de culturas diversas.

Não é uma moeda de troca e, dada a vergonhosa história colonial recente em Portugal, este Acordo realizado desta maneira torna-se algo bizarro, e talvez até limiarmente ofensivo.
14-10-2008 @ 21:19
Comentário de: Karin [Visitante]
Este acordo tem muito pouco de orgânico e muito mais de estratégico. Já sabemos que o futuro do português, muito provavelmente, passa pela vivência da língua num país tão extenso como o Brasil. Basta ver a presença brasileira na internet e compará-la com a portuguesa para perceber quais os motivos por trás deste acordo. E se calhar até são legítimos, mas não é por estes motivos que mudo a minha grafia.
15-10-2008 @ 00:23

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