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    Cineclube 25 de abril. Sambizanga. Memória da resistência colonial.

    Cineclube 25 de abril. Sambizanga. Memória da resistência colonial.

    27-04-26

    30 de abril a partir das 20h00

    25 de Abril no cinema, 25 de Abril no C.S. Mádia Leva!

    Mais um ano o Cineclube Mádia Leva! celebramos a revoluçom portuguesa resgatando um filme de entre a extensa filmografia que tem abordado o levantamento militar contra o regime fascista português e a subsequente insurreiçom popular e revolucionária que lhe seguiu, assim como as luitas de libertaçom nacional das colónias africanas que abalárom o regime colonial até faze-lo cair. Obras construídas nas margens da indústria cinematográfica e divulgadas fora dos circuitos comerciais, bem porque nom se ajustam ao relato consagrado à maior glória da democracia formal portuguesa, que assiste impotente ao renovado ascenso do fascismo; bem porque a liberdade estética e narrativa dos filmes nom se acomoda aos estándares convencionais e normativos impostos pola indústria cinematográfica.

    Formalmente muito diferentes entre si, as obras exibidas partilham a vontade de representar de forma crítica a realidade, eludindo os lugares comuns que, a força de repeti-los, deixam de significar qualquer cousa. Cineastas armados com pequenas equipas de filmagem que permitiam umha maior mobilidade e improvisaçom, apagárom as fronteiras que delimitam o cinema documental e a ficçom, devolvendo-lhe ao povo a capacidade de representar-se a si próprio, abordárom, de diferentes ópticas, as linhas de fuga que convergérom no 25 de Abril para dar passo à tentativa revolucionária mais intensa da Europa de pós-guerra. Assim, O Bom Povo Português examinava, através dumha olhada multidisciplinar, da sociologia à antropologia, das imagens de arquivo às entrevistas a pé de rua, o chamado Processo Revolucionário em Curso, PREC, e as suas contradiçons, desde o seu nascimento até a sua morte após o golpe de estado de 25 de Novembro, perpetrado pola facçom do exército alinhada com a extrema direita e com a conivência da maioria das forças políticas, destacando o partido socialista comandado pola escura figura de Mário Soares.
    Em Torre Bela, a cámara colocava-nos, literalmente, no centro dumha comunidade de jornaleiros alentejanos para avançar com eles no caminho da ocupaçom da herdade dum grande terra-tenente que foge do país após o 25 de Abril, fazendo-nos partícipes da constituiçom da cooperativa, dos debates assambleares, das formas expressivas do povo, do inventário lascivo dos bens e património da aristocracia portuguesa, e do carnaval popular organizado com as ostentosas roupas que, com as pressas, deixárom atrás os antigos proprietários, bens e património restituídos pola democracia portuguesa aos seus antigos e ilegítimos donos, num movimento que implicou a expulsom de boa parte das comunidades que ocupárom as propriedades dos terra-tenentes baixo a legitimidade revolucionária. Deus, Pátria, Autoridade analisava o regime salazarista dumha óptica marxista para abordar a continuidade das relaçons de exploraçom no novo marco democrático instaurado após o 25 de Novembro de 1975. Barronhos, quem teme ao poder popular?, achega-nos à utopia revolucionária das comissons de moradores, a organizaçom popular mais robusta da Europa, na sua tentativa de solucionar a situaçom extrema da vivenda, (25% dos portugueses moravam em bairros de lata e infra-vivendas), mediante a ocupaçom de prédios vazios, a autogestom integral dos planos urbanísticos e a construçom de novas vivendas; num filme que transita entre o ensaio sociológico, a crónica de sucessos e o thriller político com pasmosa naturalidade.
    Com Mortu Nega desprazamos o olhar para os assim chamados polo regime colonial, territórios de ultramar, constatando o potencial estético e político do nascente cinema africano, indissoluvelmente ligado às guerras pola libertaçom nacional, superando a golpe de originalidade e sensibilidade a restritiva etiqueta de cinema panfletário, introduzindo no discurso narrativo a tradiçom oral e o apego comunitário no centro do discurso estético e político. A introduçom do cinema africano nesta espécie de ciclo, que nos empraza cada 25 de Abril, nom é apenas um apéndice aos filmes que tratam de forma específica a revoluçom de Abril, antes de mais, tenhem a consideraçom, da nossa parte, de obras centrais e originais para a compreensom do fenómeno revolucionário português, já que acreditamos que a origem revolucionária do 25 de Abril há que procurá-la na derrota política e militar do regime nas guerras pola independência das colónias portuguesas, a começar pola Guiné-Bissau que proclama a sua independência unilateralmente em 24 de Novembro de 1973, antecipando-se ao golpe militar que derrocou o salazarismo. É precisamente a guerra e o processo de independência da Guiné o pano de fundo do filme de Flora Gomes, Mortu Nega que, como o filme que propomos para esta nova jeira, possui o estatuto de obra mestra autónoma, sem necessitar do contexto político em que se apoia, nem do reconhecimento dos canons impostos polas autoridades académicas que constroem a história do cinema à sua cativa medida.

    Sambizanga. Memória da resistência colonial.

    Angola 1972, o regime colonial português começa a recuar ante a ofensiva do MPLA, Movimento Pola Libertaçom de Angola. O exército português mostra sintomas de descomposiçom, a moral das tropas fraqueia, mandos do exército concertam relaçons com a guerrilha angolana, e as consequências da guerra golpeiam o povo português, pária da metrópole. E por isto mesmo, o regime colonial, consciente da sua própria desintegraçom, intensifica os bombardeios, multiplica os ataques indiscriminados à populaçom civil, e converte a crueldade e o horror em estratégia de guerra, apenas para retardar três anos, o que em 1972 parecia já inevitável.
    É neste contexto que Sarah Maldoror, a poeta e cineasta francesa de origens afro-caribenhas, e vinculada com a luita anticolonial do povo angolano, decide regressar ao princípio de tudo. Luanda 4 de fevereiro de 1961, o MPLA ataca as prisons de Luanda para tirar delas os seus militantes dando início a guerra de libertaçom.
    Sarah Maldoror recreia os dias prévios aos ataques adaptando para o ciema a ficçom literária A vida verdadeira de Domingos Xavier, do escritor e militante do MPLA, nascido em Portugal mas de nacionalidade angolana, Luandino Vieira. A obra de Luandino recreia o martírio do operário Domingos Xavier, detido pola PIDE no bairro onde mora, Sambizanga, situado na periferia de Angola, de onde é deslocado para diferentes cárceres de Luanda. Luandino retrata no seu livro o heroísmo de Domingos, que enfrenta com integridade o interrogatório e as torturas às que é submetido pola PIDE, que procura o nome dum enlace da guerrilha.
    Mas Sambizanga nom é apenas a recriaçom em imagens do texto de Luandino, se na obra literária todos as linhas argumentais confluem para exaltar o heroísmo de Domingos, Sarah Maldoror converte o heroísmo do revolucionário num motivo para deslocar o olhar na sua mulher, Maria, que após a detençom de Domingos inicia umha viagem homérica que a leva a deambular por todas as prisons de Luanda, na procura de informaçom sobre o seu homem, chocando com o primeiro muro da admistraçom colonial, angolanos vendidos à metrópole. Mas é no percurso de Maria onde emergem as imagens e representaçons tradicionalmente esquecidas e enterradas do imaginário revolucionário, o papel da mulher na criaçom da comunidade, as crianças como os olhos do partido na rua, as idosas e idosos como informadores da guerrilha. É um labor silencioso, onde as leituras fam-se a partir dos gestos, onde tenhem cabida os afectos, onde se encena a vida quotidiana com precisom documental, lá onde os esquecidos se tornam protagonistas; por outro lado, o ruído, a fúria interior é representada pola violência do mar embravecido com o que se abre e fecha um filme feito de contrapontos, construído na dialética. Os espaços abertos do mato angolano que transita Maria, oponhem-se aos interiores opressivos do presídio, a dureza e aspereza das pedras que levanta Domingos no seu trabalho na canteira opom-se à suavidade e doçura da pele do filho que abraça ao chegar a casa, o sofrimento e o martírio do povo angolano opom-se à alegria da rebeliom e da luita, assim até chegar a síntese definitiva que converte o visionado do filme numha experiência tam dura como fermosa.

    Convidadas ficades para celebrarmos este 25 de Abril fazendo memória da resistência anti-colonial, mas nem só isso, também para desterrar do esquecimento a Sarah Maldoror, umha das pioneiras do cinema feminista e anticolonial, que junto com as suas coetáneas, a cubana Sara Gómez, e a francesa Agnès Varda, às que temos dedicado mais dumha sessom, som História do Cinema escrito com maiúsculas.

    Escrito ?s 09:48:00 nas castegorias: album
    por SCMadiaLeva   , 1337 palavras, 61 views     Chuza!

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